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9.2.10

Zero Hora omite causas do crescimento da classe C


Eis que está na capa da Zero Hora de domingo, dia 7: “A vez da classe C”, com o subtítulo explicando que 32 milhões de brasileiros ascenderam e agora têm acesso a novos bens de consumo. A reportagem é do caderno Dinheiro, o que gera uma certa desconfiança, mas, como começou bem, levei fé. Me dei mal.

O texto é bom, não há como negar. Apesar de ser de um caderno de economia, é agradável de ler e se esforça para aproximar o leitor do tema abordado. Não vai direto a números e fatos duros de economês, muito antes pelo contrário. Gira em torno de histórias de vida para mostrar de que forma vive a nova classe média, as pessoas que ascenderam à classe C. E faz isso bem, com exemplos concretos, nomes, fotos. Há quatro casos na página central do caderno, de pessoas que compraram carro, andaram de avião, aderiram a um plano de saúde e compraram apartamento.

Na capa do caderno, a reportagem começa com a descrição da trajetória de uma mulher que voltou a estudar e se formou pedagoga, muito bem narrada, por sinal, por Gisele Loeblein e Rodrigo Müzell. Os números que dão a perspectiva concreta da situação do país aparecem em boxes espalhados pela página central, o que torna leve e faz com que o leitor comum ganhe proximidade com um caderno normalmente tão enfadonho. A análise das consequências desse boom da classe C para a economia ficam em um box no fim da reportagem.

Mas quando tudo parece ir muito bem, a gente percebe que está faltando alguma coisa. É óbvio, eles mostram o tempo inteiro como é a vida nos novos classe C, a quantidade de gente que subiu na vida, falam até como alguns conseguiram, mas não explicam por quê.

Não é mencionado em nenhum momento que esse fenômeno recente se deu em função de programas de governo, do aumento do emprego formal, de uma economia mais sólida e todas essas coisas que qualquer economista sério cita de olhos fechados. É como se as pessoas tivessem melhorado de vida só por mérito próprio. Trinta e três milhões de suados trabalhadores que ascenderam, de uma hora pra outra. E que nunca pensaram em fazer isso antes de Lula se tornar presidente. Engraçado, não? Pois é, o texto não questiona nada disso. Aliás, a leveza da narração vai conduzindo o leitor de tal forma que ele não se pergunte por que isso vem acontecendo.

O fato de tanta gente melhorar de vida parece quase um milagre, sem causas aparentes. Mais uma vez, Zero Hora manipula a informação, omite dados, engana o leitor. A diferença é que agora fez bem feito, o que é mais assustador do que quando é escancarado.

Por Cris Rodrigues

Fonte: JornalismoB
Atualizado em 10/02/2010 às oh36min.

23.11.09

Mutirão antimídia

Para fazer uma crítica bem feita, satisfatória, dos jornalões brasileiros, seria preciso o trabalho de um equipe de umas seis ou sete pessoas, trabalhando de oito a dez horas por dia. Eu pensei isso hoje porque cheguei ontem de uma viagem de dois dias ao sítio de meu irmão, numa área rural bastante isolada de Rio Bonito, e resolvi ler os jornais de sábado e domingo. Ainda bem que não comprei o Globo. Fiquei só na Folha, e mesmo assim minha mente quase entupiu de tantos exemplos de manipulação.

É uma situação estranha, irônica. Os jornais, hoje em dia, tornaram-se uma fonte de tanta desinformação e falsidades, que, para lê-los, temos que estar munidos de uma enorme bagagem de dados, informações, análises, de forma a poder "interpretar" objetivamente as matérias escritas, ou seja, depurá-las dos elementos tóxicos. O cidadão que lê um jornal impunemente, sem tomar as medidas cautelares necessárias, acaba se tornando um autêntico imbecil, cheio de opiniões alheias, embasadas em pilares tão sólidos quanto papel jornal.

Não tem jeito. A mídia, definitivamente, se tornou uma pedra no caminho para a democracia e para a paz mundial. O que é uma grande ironia. Evidentemente, o mundo livre e democrático precisa de uma mídia livre. Também é evidente que os cartéis midiáticos que assumiram a comunicação de massa no mundo se pretendam representantes exclusivos da "liberdade de imprensa", e isso enquanto escravizam jornalistas, desestabilizam governos, beneficiam interesses escusos, fazem campanhas de guerra, e manipulam desgraças.

A crise financeira mundial é um exemplo. Eu não consegui engolir ainda que os governos do mundo inteiro alocaram trilhões de dólares para salvar bancos privados. Ou seja, para que os filhinhos-de-papai possam continuar fazendo windsurf na Indonésia. Com esse dinheiro, o mundo poderia transformar a África com grandes obras de infra-estrutura, programas sociais e educação, tornando o continente negro num mercado gigantesco que, por sua vez, serviria para alavancar o crescimento do próprio mundo desenvolvido. Seria o Plano Marshall aplicado à Africa. O Plano Marshall, para quem não sabe, foi uma ajuda econômica dos Estados Unidos à Europa, aplicada em 1947, visando a reconstrução econômica de países que ainda secavam as feridas de guerra. A contribuição norte-americana equivaleu, em termos atualizados, a 130 bilhões de dólares, e o plano obteve resultados estupendos. Após os quatro anos durante os quais o plano foi implementado, a Europa voltou a crescer vigorosamente. E os EUA ganharam com isso, por causa das intensas relações comerciais e culturais que, a partir da ali, ganharam ainda mais força.

Por que não fizeram isso com a África? Por que os EUA não fazem isso com a devastada América Central?

A resposta, naturalmente, é política. E daí voltamos à mídia, esse Leviatã que olha governos e povos de cima para baixo. O linguista Noam Chomsky explica que não se trata de encontrar figuras diabólicas articulando planos macabros em salas de redação. É um processo natural, como uma doença. Poder gera poder e a mídia, amparada por Constituições escritas há séculos (para não dizer milênios), quando não existia comunicação de massa, conseguiu se tornar um tumor maligno que ameaça a própria existência da democracia, sobretudo em regiões com instituições democráticas ainda frágeis, como é o caso da América Latina.

É importante, claro, que exista mídia independente no mundo, mas é preciso, antes disso, que se criem leis para trazer justiça e civilidade ao universo midiático. Especialistas em saúde pública vem fazendo severas denúncias sobre os incalculáveis prejuízos que a desinformação causa aos governos e à população, por conta da irresponsabilidade das pautas midiáticas ligadas ao tema.

O caso da febre amarela no Brasil, em que mais gente morreu em virtude do pânico gerado pela mídia do que vitimadas pelo vírus, foi apenas o caso mais emblemático e que chamou mais atenção. Na época, porém, diversos médicos disseram que o problema se repete em larga escala. Esse é um problema, repito, mundial, e a humanidade, um dia, terá que realizar uma grande conferência internacional para legislar sobre a mídia. Já era tempo disso, aliás. Em vez de doar trilhões para banqueiros, o mundo poderia montar um grande sistema de tvs abertas, por satélite, para integrar as diferentes culturas mundiais. Seria lucrativo para todo mundo.

Não é o caso de termos uma mídia dominada pelo Estado. Ao contrário, a mídia hoje é absurdamente dependente do Estado, e não é por outra razão que ela tanto luta para assumir o controle do mesmo.

O aspecto mais vergonhoso dessa situação, todavia, é a dependência do Estado em relação mídia. E o Estado democrático é o povo institucionalizado. Intelectuais midiáticos vivem falando em democracia, mas mantém o debate sempre em nível rasteiro. Não lhes interessa criar um vínculo mais estreito entre a cidadania e a política, e por isso eles tratam, de todas as formas, de afastar o cidadão do universo político, seja pintando as instituições com cores dantescas, seja através de uma criminalização da atividade política, que é o que eles fazem com a militância partidária e com o sindicalismo.

Em resumo, a situação é a seguinte: nós, brasileiros, cidadãos de uma nação livre e democrática, entregamos nosso futuro, nossa cultura, nossa saúde, à meia dúzia de nababos cujas empresas ajudaram a articular o golpe de Estado em 1964 e, depois, a consolidá-lo por vinte longos tristes anos. Isso é um absurdo. Liberdade é liberdade. Podemos mexer nas leis da comunicação no Brasil ao nosso bel prazer, desde que o assunto seja discutido democraticamente e o objetivo seja o bem geral da nação. Quer dizer, os povos têm inclusive o direito de cometer erros. O importante é haver liberdade. A mídia latino-americana vende a ideologia de que os povos não tem liberdade para mudar suas leis, de que isso seria um "bolivarianismo" e não a própria essência da democracia, que é a liberdade para mudar ou não mudar, mas sobretudo a liberdade, conferida pelo voto popular, para que os representantes eleitos realizem os ajustes necessários na Carta Magna. Como um amigo gosta de dizer, a Carta Magna não é uma pedra onde estão escritos dos 10 Mandamentos. A Constituição é um pacto entre os cidadãos livres e soberanos de seu país.

O que não pode é dar golpe de Estado, como fizeram em Honduras. Esse é o crime capital contra a democracia, porque viola o seu princípio basilar. O poder emana do povo. Acabou. Se eles conseguirem tirar isso da Constituição (e é o que eles querem), então podem piar. Por enquanto, quem manda é o texto escrito e aprovado pelo Congresso Nacional em 1988.

Não são firulas ou chicanas jurídicas que podem justificar isso. Eu posso castigar levemente o meu filho, mas não estourar a sua cabeça com um tiro de revólver. Foi o que fizeram em Honduras. É bem sintomático que nossa mídia tenha simpatizado com o que foi feito lá. O golpe em Honduras também foi um golpe midiático, porque foi todo articulado em torno dos principais grupos de comunicação do país. A mesma coisa aconteceu na Venezuela em 2002. A mesma coisa aconteceu no Brasil em 1964! Muitas reuniões políticas preparatórias para o golpe militar no Brasil ocorreram em salas de redação.

A imprensa não precisa ser "apartidária", conforme a Folha agora se pretende, em mais um acesso de autismo e hipocrisia. Não precisa também ser uma "mosca" em nossa sopa, como o mesmo jornal se qualificou, em peças publicitárias que mais pareciam uma campanha de auto-desmoralização. A imprensa precisa, isso sim, assumir a sua responsabilidade como uma instituição central numa democracia, um quarto poder, e como tal sujeita aos rigores de uma Constituição democrática e livre!

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Em dezembro, acontecerá a Conferência Nacional de Comunicação. A importância desse evento, que a imprensa procurará de todas as formas desqualificar, já é visível: o debate propiciado sobre um tema fundamental. O governo já liberou mais de 200 milhões de reais para a sua realização, e já aconteceram, em todo país, conferências estaduais de comunicação. O blog vem acompanhando o evento através da internet. Se alguém me convidar, estarei lá em Brasília, representando a blogosfera, essa nova instituição, tão curiosa, tão diferente do formato monstruoso e unicelular da grande mídia. A blogosfera tornou-se (ou vem se tornando) tão grande como outras grandes mídias, mas não tem uma cabeça só. É um monstro com milhões de cabeças. Sobre a Conferência, sugiro que assistam a esse vídeo, da Conferência da Bahia, que teve a participação do governador do estado, Jacques Wagner.

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A imprensa é nociva porque ela começa informando mal as próprias autoridades. Juízes, parlamentares, governadores, prefeitos, são mal informados sobre pontos centrais de sua atividade, porque se apresentam números falsos, interpretações equivocadas, entrevistam-se analistas incompetentes e parciais, e a opinião dos leitores é recortada de forma tendenciosa.

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O caso de Honduras para mim serviu como a pá de terra que faltava para enterrar de vez a reputação democrática da imprensa brasileira. Neste sábado (21/nov/09), a Folha publicou um editorial cínico, defendendo as posições mais conservadoras do Estados Unidos, em oposição ao que pensa todo o resto do mundo. A única saída, defende a Folha, é aceitar o resultado das eleições. Mesmo sem Zelaya ter sido restituído. O jornal fala em eleições livres e competitivas. Como se houvesse liberdade num regime ditatorial onde o presidente da república, eleito pelo voto popular, é forçado a pedir refúgio numa embaixada estrangeira. A ditadura hondurenha não permite que Zelaya tenha acesso aos meios de comunicação do país, bloqueando o debate eleitoral. O que Zelaya fez? Ele é algum terrorista? É algum bandidão perigoso? Ele foi deposto porque queria incluir uma pergunta na cédula eleitoral:

- Você acha que Honduras precisa de uma assembléia constituinte?

Era uma pergunta ao povo! Nem tocava no tema da reeleição, outro ponto ridiculamente explorado pelos golpistas de lá e daqui. Sendo que o grau de hipocrisia, por aqui, atingiu as raias da loucura, visto que tivemos um presidente da república que, com apoio de toda a grande imprensa, mudou as regras eleitorais para si mesmo - e sem consultar o povo.

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Em seu editorial, a Folha desinforma, porque, quando fala em eleições livres e competitivas, omite o que seus próprios repórteres informaram: o fechamento de jornais, rádios e canais de tv favoráveis a Zelaya; toque de recolher; proibição de reunião; e o mais importante, o cerco e agressão sistemática ao líder político mais importante do país. Zelaya não concorre à eleição. Não concorria antes, nem concorre agora. Quantos colunistas não escreveram, muitas vezes, en passant, como que dando isso por verdade consensual (o que é mais irritante), sobre a vontade de Zelaya de se reeleger? No entanto, mesmo não concorrendo, ele é um quadro político fundamental no jogo de poder democrático do país. Ao silenciá-lo, vetando-lhe o acesso aos meios de comunicação mais importantes (que em Honduras também são uma concessão pública, e como tal vem sendo usados sistematicamente por Micheletti e asseclas, que a todo momento aparecem na TV fazendo pronunciamentos), a ditadura hondurenha não permite uma eleição livre. Era como se, nas eleições do Brasil em 2010, um governo golpista impedisse Lula de aparecer em qualquer grande canal ou jornal, para falar de política e pedir votos para este ou aquela candidata.

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Outra coisa que a Folha procura esconder é o fiasco da interferência americana na crise em Honduras. A mídia tentou interpretar (açodadamente, agora se vê) a ação diplomática americana como uma prova da insignificância do Brasil. Bajularam os EUA de uma forma vergonhosa, e humilhante para nós brasileiros. E agora querem forçar goela abaixo da opinião pública brasileira uma solução desesperada, resignada, derrotista, de aceitar um pleito eleitoral ilegítimo, defendido apenas pelos setores mais reacionários do governo Obama. Aliás, quem acompanha um pouco o processo político norte-americano sabe que Obama está sendo terrivelmente chantageado, atacado, caluniado por numerosas, endinheiradas e ultra-agressivas hordes reacionárias. Isso explica, mas também não legitima o que Obama está fazendo em Honduras. Ele está sendo pusilânime. Pô, ele foi chamado de "negrinho que não sabe nada", por um ministro do governo golpista! Eu esperava que ele fosse mais duro. Por outro lado, entendo que a administração do Estado americano envolve um corpo de funcionários tão gigantesco, que é difícil para Obama controlar tudo em pouco tempo. É necessário mais alguns anos para que as novas orientações ideológicas da Casa Branca percorram as artérias de todos os órgãos governamentais. Ainda mais depois de tantos anos de Reagan e Bush.

Fonte: Óleo do Diabo

16.9.09

Viva a Semana Farroupilha!


Por Antônio Oliveira, Jornalista

Semana Farroupilha é sempre uma convocação à meditação. Lembrar nossos históricos ídolos e suas façanhas. Uma reavaliação daquilo que fomos, do que somos e fazer projeções. É importante que façamos isto sem ressentimentos e com consciência e responsabilidade cívicas. Sempre com o foco no aprimoramento das instituições democráticas para o bem da coletividade e para o aprofundamento das relações de respeito entre os humanos.

Um exame da nossa história dos séculos passados e mais recente mostrará feitos memoráveis em todas as áreas, literatura, artes, imprensa, inclusive a desportiva, por que não? E a desportiva é importante até que se destaque para evitarmos no futuro episódios lamentáveis como o ocorrido recentemente, em que a memória da torcida gremista foi traída ao formar uma seleção de todos os tempos, deixando de lado Airton Ferreira da Silva e Alcindo Martha de Freitas, para citar só duas das maiores injustiças, já que alguns lembraram até de um tal de China.

Quem é esperto já deve ter notado que estou despistando para não mostrar nas primeiras linhas o caminho por onde e o lugar onde quero chegar. Vivo os tempos atuais e é nele que meus pensamentos se debatem diariamente. Não é possível lembrar nossos heróis de outros tempos sem sentir a falta que eles nos fazem nos dias atuais.

Temos num caso só e recente dois exemplos de fatos que a sociedade gaúcha lamenta e deixa margens para pensarmos até que aqueles gaúchos de faca na bota, honrados, do qual tanto nos orgulhamos, já não existem mais. Viraram pura ficção. Areia voando no deserto.

Podem até me recriminar, dizendo que propriedades são invadidas no Estado e ninguém faz nada, e então, só para complicar, eu perguntaria quem são os donos originais destas terras, mas não há Cristo que me justifique um assassinato de alguém a tiros, pelas costas. E executado por alguém que, justamente ao contrário, deveria proteger aquele que teve, de maneira estúpida e covarde, sua voz calada a balas.

Refiro-me ao sem terra, sem nada, só com esperança e coragem, Elton Brum da Silva. Morto, dia 21 de agosto, em São Gabriel, por um soldado da Brigada Militar (nos quartéis todos são soldados, do raso ao coronel, ao almirante, ao brigadeiro, ao general) que não devia estar portando arma letal naquele momento. Imaginem se os comandantes da Brigada Militar de antigamente, de outros tempos, deixariam de divulgar e mandar prender imediatamente um soldado que matasse alguém irresponsavelmente como foi o caso. Impossível de imaginar, claro. Já houve tempos em que os comandantes da Brigada Militar eram justos e respeitavam os gaúchos que lhes pagam os salários. E os Pedro e Paulo desfilavam na minha rua, na Vila do IAPI, e até tomavam café nas casas das pessoas.

Neste mesmo caminho, levanto outra questão, justamente na área em que atuo, o jornalismo. Lembro de outras épocas em que nos orgulhávamos dos jornalistas do Rio Grande do Sul. Pelas suas competência, criatividade, coragem e desprendimento. Lembramos com saudades das histórias de João Batista Aveline disfarçado de funcionário dos Correios para buscar uma denúncia sobre fardos de correspondências que eram jogados no lixo em vez de serem distribuídos aos seus destinatários. De Sérgio Caparelli tendo dificuldades para sair do Hospício São Pedro depois de passar alguns dias internado lá para fazer matéria denunciando os maus tratos que sofriam os doentes mentais internos.

Recentemente, até Giovani Grizotti andou passeando dentro dos prédios da Secretaria de Segurança Pública para mostrar que ali não havia nenhuma segurança. Fardado de brigadiano, passou por todas as portarias sem que alguém lhe pedisse uma identificação ou lhe impedisse a passagem.

É por isso que não entendo a razão de até hoje (um dia depois do 20 de setembro completará um mês) um só jornalista não ter publicado o nome deste brigadiano assassino. Imagino que isto não teria acontecido em outros tempos. Garanto que em 24 ou 48 horas, o nome dele já estaria publicado na imprensa. E não vou citar nomes de jornalistas que atuam hoje, e que poderiam fazer a coisa certa, mas não o fazem, para evitar constrangimentos. Em tempos muito mais rudes, sob a ditadura militar, de um dia para o outro denunciamos o nome de um delegado de polícia torturador que exagerou no castigo (um caldo) a um jovem enteado seu e o matou.

São estas as razões que me levam a crer que não se fazem mais gaúchos heróicos, sérios e honrados como antigamente. Na Polícia e no Jornalismo. Por isso, a Semana Farroupilha tem que ser cada vez mais prestigiada, festejada, para revivermos os heroísmos do passado. Talvez um dia recobremos a hombridade, a vergonha na cara. Viva a Semana Farroupilha ! E vejam que eu escrevi tudo isto e em nenhum momento citei a palavra corrupção.

Charge: Santiago

Fonte: RSurgente

24.8.09

RBS serrista já está em plena campanha eleitoral



Enquanto Serra "expõe cotidiano", Dilma se oculta na blindagem, segundo ZH

Se o jornal Zero Hora estampar um editorial proclamando o seu apoio ao candidato da direita José Serra à presidência da Republica em 2010 nós aplaudiremos. O que não pode é fazer campanha eleitoral a favor de Serra - e contra a pré-candidata Dilma - ocultando a condição de cabo eleitoral serrista e passando uma imagem de neutralidade e equidistância política.

A edição de hoje é flagrante. Zero Hora afirma que Dilma será blindada pelo Planalto. Mas não informa qual o motivo da sugerida proteção à ministra-chefe da Casa Civil. Que falta grave, ou mesmo crime, teria cometido Dilma para exigir tantos cuidados extras do governo federal?

Já o governador José Serra (PSDB) é objeto dos maiores elogios. Serra - segundo ZH - faz sucesso na internet. Imaginem, mais de 73 mil seguidores no seu microblog da web.

Enquanto Serra "expõe cotidiano" no microblog (como isso é feito, não é informado), Dilma se oculta - segundo o jornal da RBS, o principal sustentáculo do governo-pântano instalado no Palácio Piratini, não por acaso do mesmo partido do governador José Serra.

Surpreende que os editores de ZH não tenham ilustrado a matéria com uma fotografia do governador tucano. Talvez tenham evitado para não ficar parecendo que aderiram à candidatura serrista. Pegaria mal...


Fonte: Diário Gauche

14.6.09

Zero Hora não dá crédito de matéria


“Imprensa livre” surrupia material de agência estatal sem dar o crédito devido

O jornal Zero Hora, do grupo RBS, estampa hoje matéria com entrevista produzida pela estatal Agência Brasil e omite os créditos devidos.
Já o diário paulistano Folha de S. Paulo, traz a mesma matéria produzida pela estatal, mas se preocupa em informar a origem da entrevista do ministro da Defesa, Nelson Jobim.

19.5.09

O "Rio Grande" merece isso!

O editorial de hoje do jornal Zero Hora merece ser guardado. É um registro importante para alguém que deseje fazer um dia uma história do comportamento editorial da mídia gaúcha. Raras vezes, a posição editorial do grupo RBS mostrou-se tão desnudada. É uma constrangedora exibição de cinismo, ignorância, delírio, mentira, hipocrisia e irresponsabilidade. Intitulado “O Rio Grande não merece isso!”, o editorial coloca no mesmo saco acusados de roubo, desvio de dinheiro público, formação de quadrilha, peculato, desvio, falsidade ideológica, corrupção ativa e passiva, entre outros crimes, e os denunciantes. Vamos a ele (o texto em itálico refere-se ao editorial):

“Os gaúchos vivem um momento triste da história política deste Estado. Como se não bastassem os inevitáveis problemas decorrentes da crise econômica mundial e das armadilhas do clima, lideranças políticas, autoridades e instituições vêm protagonizando um deplorável jogo de acusações, suspeitas e mentiras que só confunde e decepciona a população. Os cidadãos rio-grandenses já não sabem em quem acreditar, tal é o emaranhado de denúncias sem provas, explicações pouco convincentes, gravações misteriosas e desarrazoadas manobras partidárias voltadas unicamente para a conquista do poder. Será tão difícil assim para o Rio Grande e sua gente retomar o caminho da verdade e da dignidade?”

A primeira frase é verdadeira. Uma das únicas em todo o texto. Na segunda frase, já aparecem a ignorância e a irresponsabilidade. Entre as mazelas do Rio Grande figuram as “armadilhas do clima”. Como assim, “armadilhas”? Para a RBS, o clima é um agente ardiloso que está colocando armadilhas a frente do pobre povo gaúcho? Os fenômenos climáticos atípicos que vem se repetindo com regularidade crescente no Estado (como secas, furacões, enchentes, entre outros) são apresentados como sendo algo completamente dissociado da ação humana. O desmatamento desenfreado, a desertificação, a morte de rios, riachos, lagos e açudes, a destruição de áreas fundamentais para o equilíbrio ambiental – tudo isso é reduzido à categoria de “armadilhas” do clima.

O mesmo parágrafo opera uma lamentável diluição de responsabilidades entre acusadores e acusados. “Os cidadãos riograndenses já não sabem em quem acreditar”, diz o texto. Que tal acreditar nas instituições responsáveis por apurar denúncias de roubo de dinheiro público? Que tal, por exemplo, divulgar ampla e didaticamente para a população o resultado das investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal na Operação Rodin, que denunciou, com fartas provas, a existência de uma quadrilha instalada no aparelho do Estado, operando inclusive com um braço midiático. Nunca é demais lembrar que, logo após o início da Operação Rodin, uma das pautas dos veículos da RBS foi sobre o uso de algemas em “homens de bem”.

“As mais recentes denúncias contra o atual governo do Estado, de uso indevido de recursos de campanha, lançam uma nova carga de suspeições no ventilador da moralidade pública. De um lado, está uma governadora acuada por incessantes ataques de oposicionistas, servidores descontentes com a administração e inimigos políticos velados. De outro, está uma oposição ansiosa para transformar qualquer gota d’água em tsunami, sustentada tanto pelo fogo amigo de quem gravita em torno do poder com interesses subalternos quanto pela munição clandestina de quem deseja conquistá-lo. No meio deste fogo cruzado, estão os cidadãos, os contribuintes, os eleitores deste Estado, cada vez mais desiludidos com a classe política e confusos em relação a seus representantes”.

Para a RBS, a governadora está “acuada por ataques de oposicionistas, uma oposição ansiosa e inimigos políticos velados”. A governadora não estaria acuada por investigações de instituições republicanas como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal, o Ministério Público de Contas e a Assembléia Legislativa, apenas para citar algumas??? E “no meio do povo cruzado” estaria os “cidadãos, contribuintes e eleitores cada vez mais desiludidos com a classe política”. Para a RBS, os cidadãos, contribuintes e eleitores do Rio Grande do Sul não têm qualquer responsabilidade sobre suas escolhas políticas. São eternas vítimas da “classe política” que, supostamente, não é escolhida por eles.

“Ninguém é convincente neste episódio lamentável: nem os denunciantes, que levantam suspeitas sobre tudo e todos, e não conseguem provar nada; nem o governo, que parece mais preocupado em desqualificar seus acusadores do que em se abrir à transparência exigida pelos cidadãos. E o pior é que as instituições independentes, que poderiam abreviar a angústia da população, mostram-se no mínimo insensíveis. Como justificar, por exemplo, que o Ministério Público Federal, ao qual se atribui a guarda de provas decisivas para o equacionamento do impasse, não venha a público para, pelo menos, esclarecer se elas existem?”

Mais uma vez a operação de diluição entre acusadores e acusados. Esse parágrafo beira a cumplicidade com os acusados de formar quadrilhas para saquear o estado. E as “instituições independentes” são insensíveis por não dizerem o que a RBS quer na hora que ela quer.

“Cogita-se, agora, da formação de uma CPI na Assembleia Legislativa do Estado para investigar as novas denúncias contra o governo. Com todo respeito a esse instrumento de ação parlamentar, é difícil imaginar que a pretendida comissão não venha a se transformar apenas num palanque eleitoral da disputa política para o pleito do próximo ano. Numa situação normal, se fosse para realmente apurar a verdade, a investigação seria bem-vinda. Mas no atual momento e considerando-se a mesquinhez das posições políticas vigentes, tende a ser uma perda de tempo e um novo fator de descrença da sociedade nos seus representantes, independentemente da sigla partidária que defendem”.

Aqui, o instrumento da CPI é apontado como “palanque eleitoral da disputa política”. Memória é bom e não faz mal a ninguém. No dia 27 de abril de 2001, o mesmo jornal Zero Hora publicou um editorial elogiando a CPI da Segurança Pública que estaria “cumprindo o seu papel”: “bastou uma inspeção feita de surpresa no Instituto Geral de Perícias (IGP), na capital, para que representantes da comissão de inquérito pudessem constatar in loco as graves deficiências materiais e de pessoal desta instituição cujo trabalho é essencial para o combate à criminalidade”, afirmou o editorial.

Na mesma linha, no dia 22 de março de 2001, a então editora de Política de ZH, Rosane de Oliveira, escrevia: “O sucateamento da frota da Brigada Militar e da Polícia Civil não é uma abstração criada pelos opositores do governo (Olívio) para justificar a criação de uma CPI (…). O governo do Estado está diante de um problema que exige ação imediata” . Nestes e em outros textos de opinião publicados na época não há referências ao “palanque da oposição”

“O que não pode é persistir esta situação de irrespons
abilidade coletiva, que só faz mal ao Estado. O Rio Grande, por sua tradição política e pela índole de sua gente, não merece tanto constrangimento. Ainda que um parlamentar da terra tenha dito recentemente que está se lixando para a opinião pública, somos nós – os cidadãos comprometidos com o progresso e a justiça – que podemos mudar este estado de coisas, transformando a indignação em protesto, em manifestações públicas, em voto consciente, em repúdio inequívoco às mentiras e falsidades. O Rio Grande exige mais grandeza política de seus representantes políticos”.

A irresponsabilidade que faz mal ao Estado é a da RBS e seus agentes político e midiáticos que não respondem por suas escolhas políticas e editoriais. Há décadas, a RBS defende e integra um esquema de poder político e econômico que anda de mãos dadas com a privatização do Estado, a destruição ambiental e a criminalização dos setores da sociedade que lutam contra isso. Quando os privatizadores do bem público são pegos com a boca na botija questiona-se o uso de algemas e dilui-se acusadores e acusados. Apresentando-se como porta-voz da “índole do povo gaúcho”, a RBS oculta seus interesses políticos e empresariais, sonega informações, transforma o clima em um inimigo ardiloso, pisoteia a memória e a consciência histórica do Estado.

Uma última observação: o Rio Grande merece isso sim. Shakespeare colocou na boca de Hamlet: “se todos recebessem o que merecessem, ninguém escaparia do chicote”. O Rio Grande do Sul e a população do Estado, apontada miticamente como a “mais politizada” do país, têm o dever de responder por suas escolhas e omissões.

Fonte: RSurgente.