8.2.10
O falso nacionalismo da TV Globo
Está começando a guerra digital no Brasil
Com os níveis de audiência em vertiginosa queda, as tevês abertas (não pagas) estão a beira de um ataque de nervos. Para tanto, apelam para o velho truque do nacionalismo ao reclamarem ao ministro das Comunicações Hélio Calixto da Costa o cumprimento estrito do artigo 222 da Constituição brasileira. Este artigo diz o seguinte, segundo a livre interpretação da TV Globo em matéria veiculada no Jornal Nacional, ontem à noite: "Empresas jornalísticas, mesmo na internet, tem que pertencer, direta ou indiretamente, a brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos".
Com truque ou sem truque, o certo é que a ameaça à hegemonia das empresas de radiofusão é real. O grande bicho-papão da Globo e demais redes de televisão e rádio no Brasil são as empresas de telefonia, que se preparam para disputar o nosso vasto mercado de comunicação social. As velhas redes representam um modelo tecnológico e uma fórmula comunicacional (ideologizada e unidimensional) que aos poucos estão ficando obsoletos.
Estamos no ponto exato do que se pode chamar de encruzilhada tecnológica da comunicação brasileira. Os grandes capitais do setor disputam o mercado, mas esquecem os requerimentos da democratização horizontal da comunicação, recentemente pautados pela Conferência Nacional de Comunicação (1ª Confecom), de dezembro de 2009.
Em 2008, a rede Globo faturou cerca de 6 bilhões de reais, ao mesmo tempo que a operadora de telefonia Brasil Telecom teria faturado cerca de 40 bilhões de reais. Isto demonstra que, de fato, é uma luta desigual, considerando o tamanho dos capitais envolvidos e a atratividade do negócio em si. As novíssimas mídias, a permissão da lei brasileira para que estrangeiros operem e controlem totalmente as empresas de telefonia, a chegada de empresas de comunicação da Europa (Vivendi e Prisa/El País) promovem um abalo sísmico no mercado de comunicação do Brasil. As velhas redes de radiofusão contam com uma bancada numerosa e mobilizada no Congresso (no vídeo acima fica evidente), contam mesmo com o próprio Ministério das Comunicações, cedido a eles pelo lulismo de resultados, mas essas alianças são precárias e podem migrar em busca de ambientes mais confortáveis para seus interesses eleitorais e pecuniários.
O processo vai se precipitar até que se complete a conversão tecnológica brasileira para o sistema digital, em pleno curso, hoje. As verbas publicitárias das televisões abertas encolhem a cada mês, na razão direta da queda nas audiências de sua grade de programação, os investimentos precisam ser feitos para acompanhar o salto tecnológico, a concorrência da internet é acirrada, e, assim, o futuro nada mais é que uma sombra ameaçadora que pode liquidar com os velhos baronatos de antigas famílias. Restam as alianças, as fusões e as incorporações, fórmulas igualmente antigas de o novo incorporar o arcaico em nome de um progresso que sempre foi para poucos. Ao Estado resta, na mesma medida, arbitrar menos em favor dos grandes capitais e mais em proveito da verdadeira democratização dos meios de comunicação. Este é um compromisso que a futura candidata Dilma precisa assumir, já que Lula ficou sentado no meio do caminho, entre o rochedo inarredável do seu espírito conciliatório e a pedra dura de sua incompreensão sobre o papel da comunicação social em nossos dias.
Fonte: Diário Gauche
10.12.09
Zero Hora corre para o vinagre



Três exemplos de como não se faz jornalismo
Vá entender as editorias do jornal Zero Hora. Não tente, você pode adquirir um torcicolo mental a ponto de comprometer as suas faculdades cognitivas para todo o sempre.
Na edição de hoje, três abordagens de três temas distintos fritam o cabeção de qualquer um. Ignora-se onde os caras querem chegar, tamanha é a distorção dos princípios básicos do bom jornalismo.
O jornal da RBS quer ser engraçadinho quando menciona o "reino do Chávez". Engraçadinho e impreciso. A Venezuela é uma república democrática, não é uma monarquia. Se quiser insistir, o editor então deve mandar confeccionar os textos inteligentes chamados "para seu filho entender". Quanto à abordagem da chamada "crise bancária venezuelana" esta é puramente ficcional. Sugiro que os editores/redatores leiam a Folha de S. Paulo de hoje, o insuspeito diário dos Frias, certamente confiável à empresa dos Sirotsky. Na Folha serrista, se fica sabendo que o Judiciário da Venezuela mandou prender banqueiros "acusados de apropriação indevida de fundos de poupadores, fraude e formação de quadrilha, em sete bancos privados de pequeno porte". Em ZH, há uma livre re-interpretação da notícia, assim: "Presidente [Hugo Chávez, agora ele é "presidente", acima é chamado de "monarca"] já fechou sete bancos e prendeu oito executivos, causando apreensão entre correntistas". O Judiciário da Venezuela está procurando sanear o sistema bancário do País, com o objetivo de precisamente preservar a poupança e os investimentos dos cidadãos e cidadãs venezuelanos. Mas a matéria de ZH passa uma idéia inversa, a de que a intervenção "do Presidente Chávez" está trazendo insegurança para os correntistas dos bancos corrompidos por seus próprios donos e executivos financeiros.
A desonestidade jornalística dos editores de ZH, neste caso, é mais que evidente, é gritante. Trata-se de um estelionato midiático constrangedor. Pode ser objeto de estudos comparativos nas faculdades de Comunicação Social pelo Brasil afora. O professor coloca ZH e a Folha, lado a lado e compara o tratamento da referida matéria. Notem que estou - propositalmente - sugerindo a Folha, um jornal que não é propriamento o paradigma da honestidade jornalística, mas vá lá.
Outra matéria da edição de hoje, em ZH: essa não foi vítima da desonestidade dos editores, mas da inutilidade da notícia. Os caras estampam como manchete a clássica notícia do "cachorro que mordeu o transeunte". Ou seja, o governador Arruda nega enriquecimento. Ponto. Isto é notícia? Que relevância tem esta platitude para ocupar a manchete no alto de página? [Desculpem o oxímoro "platitude relevante".]
Outra, também de hoje: colocar na capa do jornal as desculpas esfarrapadas do "egrégio" ex-reitor da Ulbra. Onde está a relevância disso? A intenção é mesmo reabilitar a reputação de um suspeito de impor gestão temerária numa Universidade que envolveu alto risco à profissão e às expectativas e sonhos de mais de cem mil pessoas? Afinal, de que lado ZH está?
A continuar assim - com esse jornalismo de verdades particulares - ZH vai a passos largos para o vinagre da nossa indiferença.
Fonte: Diário Gauche
7.12.09
Blogueiro notificado pela Folha: "Intimidação"
Atualizado em 05 de dezembro de 2009 às 09:35 | Publicado em 04 de dezembro de 2009 às 23:48
por Conceição Lemes
Antonio Arles é estudante de História da USP, militante de movimentos sociais, ciberativista e blogueiro. Hoje ele recebeu uma notificação dos advogados da Folha e do Uol. Determinava que retirasse do seu blog, o Arlesophia, as imagens da campanha para cancelamento das assinaturas do jornal e do portal.
Viomundo – A que horas isso aconteceu?
Antonio Arles – Aproximadamente às 14 horas, quando saía de casa para a USP. Minha mulher [Flávia] manobrava o carro na garagem e eu esperava na calçada. Aí, fui abordado por um motorista de táxi, que perguntou se eu era Antonio. À confirmação, apontando na direção de um táxi parado no lado oposto à minha casa, disse: “Ela quer falar com você”.
Viomundo – Ela era quem?
Antonio Arles – Uma mensageira do escritório de advocacia que representa o jornal e o portal. Ela limitou-se a dizer que havia uma correspondência para mim e pediu-me que assinasse o protocolo de recebimento. Como estava atrasado para a aula, abri o envelope no caminho. Aí, eu vi que se tratava de uma notificação extrajudicial dos advogados da empresa pelo uso indevido da imagem na campanha pelo cancelamento das assinaturas da Folha e do Uol.
Viomundo – A campanha começou quando?
Antonio Arles – Domingo passado.Na sexta-feira passada [27 de novembro], em função da publicação do artigo Os filhos do Brasil, do César Benjamin, começou no twitter um movimento para cancelamento das assinaturas. No domingo, como já havia muitas adesões, resolvemos lançar a campanha.
Viomundo – É uma campanha do seu blog?
Antonio Arles – Não. É de várias pessoas da blogosfera. Para facilitar o acesso, eu coloquei os links das imagens no meu blog. A partir daí o pessoal foi disseminando.
Viomundo – O que contêm essas imagens?
Antonio Arles – As marcas da Folha e do Uol.
Viomundo – Qual a alegação dos advogados?
Antonio Arles – Uso indevido da imagem. No final da tarde, fiz o que notificação determinou: retirei as imagens do ar. Consequentemente a própria campanha do meu blog.
Viomundo – O que você pretende fazer agora?
Antonio Arles – Meu advogado está estudando medidas legais cabíveis contra essa postura da Folha. Considero intimidação. É cerceamento à liberdade de expressão.
Nota do Viomundo: Os advogados alegam que "A marca da Folha e do Uol foram indevidamente utilizadas, de vez que não autorizadas, agravando-se tal ato pelo seu denegrimento." Denigrir é um termo racista. Significa tornar negro, em sentido pejorativo. Há outras palavras para expressar o que desejam, mas recorrem a uma com conotação preconceituosa, que associa o tornar-se negro a algo negativo. Denigrir, segundo o Dicionário do Houaiss, quer dizer também diminuir a pureza, o valor de; conspurcar(-se), manchar(-se).
Fonte: Viomundo
Cancelamento de assinaturas preocupa UOL e Folha
Pelo visto, os cancelamentos de assinaturas da Folha e do UOL começam a incomodar o grupo Frias. O blog do Mello relata por que cancelou sua assinatura do UOL. Aqui em casa, fizemos o mesmo. A razão: uso indevido da inteligência do assinante.
Fonte: RSurgente
25.11.09
JÁ, RESISTÊNCIA E AGONIA
Por Luiz Cláudio Cunha em 24/11/2009
A maior fraude com dinheiro público da história do Rio Grande do Sul carrega nos ombros o sobrenome ilustre de Germano Rigotto. O irmão do ex-governador gaúcho, Lindomar, brilha como o principal implicado entre as 22 pessoas e 11 empresas denunciadas pelo Ministério Público e arroladas na CPI da Assembléia gaúcha que investigou há 14 anos uma milionária falcatrua na construção de 11 subestações da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE). Foi uma tungada, em valores corrigidos, de aproximadamente 800 milhões de reais – quase 15 vezes o valor do mensalão do governo Lula, três vezes o valor dos desvios atribuídos ao clã Maluf em São Paulo, cerca de 20 vezes o valor apurado no escândalo do Detran que expôs a governadora gaúcha Yeda Crusius a um pedido de impeachment.
Esta história foi contada em detalhes, em 2001, por um pequeno jornal de Porto Alegre, com tiragem de apenas cinco mil exemplares numa capital com quase 1,5 milhão de habitantes – e está recontada, a partir desta semana, numa edição extra do JÁ que chega às bancas e no seu site.
O JÁ é um bravo mensário que sobrevive há 24 anos pela teimosa resistência de seu editor, Elmar Bones da Costa, nascido há 65 anos em Santana do Livramento, cidade gaúcha no limite com o Uruguai, de onde ele trouxe a rebeldia indomável do fronteiriço. Ao longo de 40 anos de carreira, Bones construiu com talento uma sólida e reconhecida biografia na imprensa nacional que passa pelas redações de Veja, Gazeta Mercantil, Jornal do Brasil, O Estado de S.Paulo, IstoÉ e Folha da Manhã.
Seu troféu mais lustroso, porém, é o CooJornal, um mensário editado pela extinta Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (1976-1983) nos duros anos de chumbo da ditadura. Era um jornal de reflexão sobre a imprensa e seus profissionais, que abria espaço para a memória e a história recente do país, contada por intelectuais de peso e cores que não tinham lugar na imprensa tradicional. Em 1980, ainda em plena ditadura, Bones publicou um documento sigiloso do Exército em que os generais faziam uma dura autocrítica à atuação de suas tropas na repressão às guerrilhas do Vale da Ribeira e do Araguaia. Os militares não gostaram e ele, junto com três colegas do CooJornal, foi condenado a 18 meses de prisão. Gramou 15 dias de cadeia e foi libertado com sursis.
Duas mortes
A mesma intolerância dos generais da ditadura recrudesceu, depois, com os Rigotto da democracia. A família sentiu-se ultrajada pela primeira página da edição 287 de maio de 2001 do JÁ, que anunciava: "O Caso Rigotto – Um golpe de US$ 65 milhões e duas mortes não esclarecidas". Três meses depois, a matriarca da família, Julieta Vargas Rigotto, mãe de Lindomar e de Germano, entrou na Justiça com duas ações. Uma pelo Código Penal contra o jornalista que assina a reportagem, Elmar Bones, acusado de calúnia e difamação. Outra pela Lei de Imprensa contra a editora do JÁ, pedindo indenização por dano moral.
Nos dois anos seguintes, Bones ganhou todas as ações contra ele, em todas as instâncias, e o processo foi arquivado. Mas, em dezembro de 2003, a Vara Cível do Tribunal de Justiça condenou o JÁ ao pagamento de uma indenização que hoje alcança 54 mil reais, penhorando seus bens para cumprir a decisão. Desde agosto de 2009 um perito da Justiça vasculha mensalmente as conta do jornal para bloquear 20% de sua receita bruta. Assim, estranhamente, uma mesma reportagem gerou na Justiça duas sentenças díspares, contraditórias: uma absolvendo por unanimidade, outra condenando.
O pequeno mensário, que já teve 22 jornalistas e uma dezena de estagiários e colaboradores na Redação de uma ampla casa alugada no bairro do Bonfim, hoje está reduzido a Bones e sua companheira, Patrícia Marini, também jornalista, uma estagiária, uma secretária, dois computadores, um telefone e uma dezena de contas atrasadas, acuados em duas salas pequenas do antigo prédio na avenida Borges de Medeiros, no centro da cidade, onde funciona a Associação Riograndense de Imprensa (ARI), que até hoje não se manifestou sobre o caso Rigotto vs. JÁ. Assim, a ação de 54 mil reais de uma veneranda mãe que se diz injuriada está asfixiando, aos poucos, um destemido jornal nanico que ousou contar a verdade sobre uma quadrilha, identificada pela CPI e pelo Ministério Público, que roubou 800 milhões de reais do povo gaúcho. Dona Julieta Rigotto, aos 88 anos de vida, está matando um jornal alternativo que ainda não atingiu seus tenros 25 anos de existência. E tudo disso com o aval da Justiça.
A pequena editora de Bones, além das 396 edições do JÁ, publica uma revista mensal e quatro guias de bairro e ostenta 35 títulos de livros publicados. Ganhou oito prêmios ARI, o mais importante do Rio Grande do Sul, e em 2004, superando os grandes jornais e revistas do centro do país, faturou a categoria principal do maior prêmio do jornalismo brasileiro, o Esso, com "A tragédia de Felipe Klein" – um texto dramático, arrebatador do repórter Renan Antunes de Oliveira sobre a vida e morte de um jovem e atormentado suicida de Porto Alegre.
A reportagem de quatro páginas de 2001 que tanto incomodou os Rigotto é outra vencedora: conquistou o prêmio daquele ano da hoje silente ARI e o valioso Prêmio Esso Regional, carimbo de sua qualidade e relevância jornalística. A cirúrgica manchete do jornal – "O Caso Rigotto – Um golpe de US$ 65 milhões e duas mortes não esclarecidas" – expressava a mais pura verdade. O golpe era aquele destrinchado na CPI da CEEE.
Alta voltagem
A primeira morte era de uma garota de programa, Andréa Viviane Catarina, 24 anos, conhecida nas boates da capital como "Amanda". No fim da tarde de 29 de setembro de 1998, ela despencou, nua, do 14º andar do Solar Meridien, um prédio na rua Duque de Caxias, no centro de Porto Alegre, a duas quadras do palácio que Germano Rigotto ocuparia cinco anos mais tarde.
O dono do apartamento de onde caiu Andréa era o irmão do futuro governador, Lindomar Rigotto, que estava em casa na hora do incidente. À polícia ele contou que a garota tinha bebido uísque e ingerido cocaína. Os exames de laboratório não encontraram vestígios de álcool ou droga no sangue da jovem. A autópsia indicou que a vítima apresentava três lesões – duas nas costas, uma no rosto – sem ligação com a queda, indicando que ela estava ferida antes de cair. Três meses depois, Rigotto foi denunciado à Justiça por homicídio culposo e omissão de socorro. No relatório, o delegado Cláudio Barbedo cita o depoimento de uma testemunha descrevendo o réu como "usuário e traficante de cocaína".
A segunda morte, 142 dias depois, era a do próprio Lindomar Rigotto. Então dono da boate Ibiza, na praia de Atlântida, a casa mais badalada do litoral gaúcho, ele fechava o balanço do último baile do Carnaval de 1999, que animou sete mil foliões até o amanhecer daquela Quarta-Feira de Cinzas, 17 de fevereiro. Cinco homens armados irromperam ali, no momento em que Rigotto e seu gerente contavam a renda. Os ladrões botaram o dinheiro numa sacola e fugiram, cantando pneu. Rigotto saiu em perseguição no seu Gol branco e levou um tiro acima do olho. Morreu a caminho do hospital, aos 47 anos. A bala fatal acabou arquivando o processo pela morte da garota, mas reavivou o mistério em torno da fraude milionária da CEEE.
Afundada em dívidas de quase 1,8 bilhão de dólares, a estatal gaúcha de energia encontrava dificuldades para conseguir os 142 milhões de dólares necessários para as subestações que iriam gerar 500 mil quilowatts para 51 pequenas e médias cidades do Rio Grande. O então governador Pedro Simon, preocupado com a situação pré-falimentar da empresa, tinha ordenado austeridade total. Até que, em março de 1987, criou-se o cargo de "assistente da diretoria financeira" para acomodar Lindomar Rigotto. "Era um pleito político da base do PMDB em Caxias do Sul", confessou na CPI o secretário de Minas e Energia da época, Alcides Saldanha. O líder do governo Simon na Assembléia e chefe da base serrana era o deputado caxiense Germano Rigotto.
Treze pessoas ouvidas pela CPI apontaram Lindomar como "o verdadeiro gerente das negociações" com os dois consórcios, agilizando em apenas oito dias a burocracia que se arrastava havia meses. Os contratos nº 1.000 e nº 1.001 foram assinados em dezembro numa solenidade festiva no Palácio Piratini pelo governador e pelo secretário. Logo após a assinatura, pagamentos foram antecipados, contrariando as normas explícitas baixadas por Simon para vigiar de perto as contas da estatal.
Eram documentos de alta voltagem financeira de uma estatal quase falida. Tanto que a CEEE teve que recorrer três meses depois a um empréstimo de 50 milhões de dólares do Banco do Brasil, dinheiro captado por sua agência no paraíso fiscal de Nassau, nas ilhas Bahamas. Apesar da importância em dinheiro, o presidente da estatal, Osvaldo Baumgarten, e o secretário de Minas e Energia confessaram candidamente na CPI que não leram a papelada que assinaram. "Eu não tinha condições de ler todos os contratos firmados pela CEEE", defendeu-se Alcides Saldanha, mais tarde ministro dos Transportes do governo Fernando Henrique Cardoso.
Uma investigação da área técnica da CEEE percebeu que havia problemas na papelada – documentos adulterados, folhas numeradas a lápis, licitação sem laudo técnico provando a necessidade da obra. Em fins de 1989, Rigotto decidiu sair para cuidar da "iniciativa privada", dividindo o controle com o irmão Julius do Ibiza Club, uma rede de quatro casas noturnas no Rio Grande e Santa Catarina. A sindicância interna na CEEE recomendou a revisão dos contratos, mas nada foi feito.
Conluio e papelão
A recomendação chegou ao governo seguinte, o de Alceu Collares (PDT) e à sucessora de Saldanha na secretaria de Minas e Energia, chamada Dilma Rousseff. Ela ficou eletrificada com o que leu: "Eu nunca tinha visto nada igual", diria Dilma, pouco depois de botar o dedo na tomada e pedir uma nova investigação. Ela não falou mais no assunto porque, em nome da santa governabilidade, o PDT de Collares precisava dos votos do PMDB de Rigotto para aprovar seus pleitos na Assembléia. Mesmo assim, antes de deixar a secretaria, em dezembro de 1994, Dilma Rousseff teve o cuidado de encaminhar o resultado da sindicância para a Contadoria e Auditoria Geral do Estado (CAGE), que passou a rastrear as fagulhas da CEEE com auditores do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e do Ministério Público.
O tamanho apurado da fraude tinha níveis de tensão diferentes em reais ou dólares, mas dava o mesmo choque: 65 milhões de dólares segundo a CAGE, ou 78,9 milhões de reais de acordo com o Ministério Público.
O deputado Vieira da Cunha, hoje líder da bancada do PDT na Câmara Federal, propôs em 1995 a CPI que jogaria mais luzes sobre a fraude na CEEE. Vinte e cinco auditores quebraram sigilos bancários, fiscais e patrimoniais dos envolvidos. Em 13 depoimentos, Lindomar Rigotto foi apontado como a figura central do esquema, acusação reforçada pelo chefe dele na CEEE, o diretor-financeiro Silvino Marcon. A CPI constatou que os vencedores, gerenciados por Rigotto, apresentaram propostas "em combinação e, talvez, até ao mesmo tempo e pelas mesmas pessoas". Os dois consórcios apresentaram propostas para dois subconjuntos, B1 e B2.
O JÁ de Elmar Bones lembrou:
"Apurados os vencedores, constatou-se que o consórcio Sulino venceu todas as subestações do grupo B2 e nenhuma do B1. Em compensação, o Conesul venceu todas as obras do B1 e nenhum do B2. A diferença entre as propostas dos dois consórcios é de apenas 1,4%".
A CPI foi ainda mais chocante:
"É forçoso concluir pela existência de conluio entre as empresas interessadas que, se organizando através de consórcios, acertaram a divisão das obras entre si, fraudando dessa forma a licitação".
A quebra de sigilo bancário de Rigotto revelou em sua conta um crédito de 1,170 milhão de reais, de fonte não esclarecida. O diretor Silvino Marcon justificou à CPI os 156 mil reais encontrados em sua conta particular como sendo "sobras da campanha de 1986".
O relatório final da CPI caiu nas mãos de outro caxiense, que não poupou ninguém, apesar do parentesco. O petista Pepe Vargas, que foi prefeito de Caxias e hoje é deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores, é primo de Lindomar e Germano Vargas Rigotto. "De tudo o que se apurou, tem-se como comprovada a prática de corrupção passiva e enriquecimento ilícito de Lindomar Vargas Rigotto", escreveu o primo Pepe no relatório final.
Pela primeira vez, entre as 139 CPIs criadas no estado do Rio Grande do Sul desde 1947, eram apontados os corruptos e os corruptores. Além de Lindomar Rigotto e outras 12 pessoas, a Assembléia Legislativa gaúcha aprovou o indiciamento pela CPI de 11 empresas, sem poupar nomes poderosos como os da Alstom, Camargo Corrêa, Brown Boveri, Coemsa, Sultepa e Lorenzetti. As 260 caixas de papelão da CPI foram remetidas no final de 1996 ao Ministério Público, transformando-se no processo n° 011960058232 da 2ª Vara Cível da Fazenda Pública em Porto Alegre. Os autos somam 30 volumes e 80 anexos e envolvem 41 réus – 12 empresas e 29 pessoas físicas. E tudo isso corre em segredo de Justiça.
Coisa de mãe
Essa história incrível, contada sem peias pelo jornal nanico de Elmar Bones, parece também um segredo de imprensa. Nenhum dos grandes veículos de comunicação do Rio Grande do Sul recontou o caso, o mais vultoso entre os 200 processos abertos pelo Ministério Público nos últimos 15 anos. Menos atenção ainda provocaram as duras reações judiciais da família Rigotto, que podem matar o único jornal que se atreveu a jogar luz sobre a milionária treva financeira que se abateu sobre a CEEE.
O ex-governador Germano Rigotto costuma apregoar aos amigos suas boas relações com os dois maiores grupos de mídia do Rio Grande – a Caldas Júnior (jornal Correio do Povo, rádio Guaíba e Rede Record) e a RBS (jornal Zero Hora, rádio Gaúcha e rede RBS, retransmissora da Globo). Isso não impediu, porém, que a brava Julieta Vargas Rigotto processasse a TV-COM, o canal comunitário da RBS, por ter classificado a morte do filho Lindomar na praia como "queima de arquivo". Ela ganhou na Justiça, em 2003, o direito de receber 150 salários mínimos, com juros, pela ofensa que remetia o fim violento do filho à morte da garota e aos curtos-circuitos contábeis da CEEE.
Quando perguntado diretamente sobre o absurdo dessa situação, o ex-governador Germano Rigotto refugia-se na saia materna: "Não tenho nada a ver com isso. É coisa da minha mãe", manda dizer o irmão do réu central da maior fraude da história gaúcha, escapulindo da responsabilidade de um caso de marcantes implicações políticas, não filiais.
Diante da primeira ação de dona Julieta na Justiça, o promotor Ubaldo Alexandre Licks Flores rebateu o pedido de processo, em novembro de 2002:
"[não houve] qualquer intenção de ofensa à honra do falecido Lindomar Rigotto. Por outro lado é indiscutível que os três temas [a CEEE e as duas mortes] estavam e ainda estão impregnados de interesse público".
Duas semanas depois, a juíza Isabel de Borba Luca, da 9ª Vara Criminal de Porto Alegre, deu a sentença que absolvia Bones:
"(...) analisando os três tópicos da reportagem conclui-se pela inexistência de dolo (...) em nenhum momento tem por intenção ofender (...) não se afastou da linha narrativa (...) teve por finalidade o interesse público".
Em agosto do ano seguinte, por unanimidade dos sete votos, os desembargadores do Tribunal de Justiça negaram o recurso da bravíssima dona Julieta. E o caso foi encerrado na área criminal.
Andou e prosperou, porém, na área cível. Em dezembro de 2003, o relatório do desembargador Luiz Ary Vessini de Lima transbordava emoção:
"Não há como afastar a responsabilidade da ré pelas matérias veiculadas, que atingiram negativamente a memória do falecido, o que certamente causou tristeza, angústia e sofrimento à mãe do mesmo (...)".
E assim acabou condenado o JÁ e seu editor, que recorda ao Observatório da Imprensa a falta de simetria do processo atual e da cadeia que levou pela publicação de documentos da repressão antiguerrilha.
Fala Elmar Bones:
"A sentença que nos condenou, agora, é uma piada. O processo de 1980 era um absurdo só explicável num regime ditatorial. Os ditos `documentos sigilosos´ eram relatórios de campo sobre ações do Exército no combate à guerrilha, narrando fatos ocorridos já havia mais de dez anos e que só tinham importância porque, na época em que se deram, a censura não permitiu que fossem noticiados. Essa ação de agora é mais absurdo ainda porque estamos em pleno regime democrático e a Justiça não conseguiu apontar nenhum erro ou inverdade na reportagem sobre o assassinato de Lindomar Rigotto. Nosso objetivo com ela era mostrar que Lindomar, assassinado em circunstâncias duvidosas, era o principal implicado em dois outros crimes não esclarecidos – a morte de uma prostituta e o desfalque na CEEE, o maior já ocorrido no Sul e que está encoberto pelo segredo de Justiça. Há 14 anos foram apontados os corruptores e os corruptos e até agora ninguém foi punido. Só o JÁ está pagando o pato."
Voltar ou morrer
Na terça-feira (24/11) em que se divulga a edição nº 565 deste Observatório completam-se 116 dias de censura sobre o jornal O Estado de S.Paulo, impedido por decisão de um juiz amigo e camarada do senador José Sarney de publicar os dados oficiais da "Operação Boi Barrica", da Polícia Federal, que investigou seu filho, o empresário Fernando Sarney, flagrado em grampos telefônicos e conversas que induzem ao tráfico de influência no setor público. "Não tenho nada a ver com isso. É coisa do meu filho", diz o presidente do Senado Federal.
Na mesma terça-feira completam-se 112 dias que um perito da Justiça devassa, lá dentro da Redação, as contas do jornal JÁ para garantir a indenização de dona Julieta Rigotto, que se diz caluniada pela mera repetição de detalhes escabrosos na gestão do dinheiro público de uma estatal gaúcha, sob responsabilidade de seu finado filho, Lindomar, revelados numa CPI e acolhidos pelo Ministério Público. "Não tenho nada a ver com isso. É coisa da minha mãe", diz o ex-governador Germano Rigotto, virtual candidato do PMDB ao Senado em 2010.
Assim, sujeitos ocultos de ações legais de mães e filhos que ferem a liberdade de expressão e afrontam a verdade, o ex-governador Rigotto e o senador Sarney imaginam furtar-se de suas responsabilidades políticas e éticas. No caso do Estadão, rijo e forte aos 134 anos de vida, não se teme por sua saúde e sobrevivência, já que tem os meios para derrubar, cedo ou tarde, a restrição absurda que se abate sobre ele. Quanto ao JÁ, jornal nanico de Porto Alegre, o caso inspira cuidados e graves temores sobre suas reais chances de sobrevida. O único alento, até agora, é o fato de que o recurso do JÁ ao Supremo Tribunal Federal caiu nas mãos do implacável ministro Joaquim Barbosa, um juiz que dá esperança e fôlego até aos moribundos desenganados pela ciência e pela lei dos homens.
Elmar Bones revela seu desalento no título do editorial ("Voltaremos. Ou não?") da edição extra do JÁ que desembarca esta semana nas bancas com a foto de um mascarado de terno e gravata e uma manchete acabrunhante na primeira página: "O RIO GRANDE CORRUPTO. Escândalos sucessivos abalam o mito do `Estado mais politizado do Brasil´".
Bones adverte no editorial de tom sombrio:
"Pela primeira vez em quase 25 anos, não podemos garantir aos leitores que o jornal JÁ voltará a circular. (...) Um pequeno jornal condenado por `dano moral´ numa ação movida pela família de um político influente, ex-governador do Estado, num mercado em que as maiores agências de publicidade têm contas do governo. (...) Quanto perdemos no mercado publicitário? (...) Voltaremos! Ou não?"
Ninguém sabe ainda responder. Se o JÁ não voltar, não será mais um jornal a morrer, diante do silêncio inexplicável de alguns, da omissão de muitos, da complacência de todos nós. A morte iminente de um jornal como o JÁ – somado ao desalento de um jornalista como Elmar Bones – é um fundo golpe nas convicções de todos que acreditam nos fundamentos da democracia, da justiça, da verdade e de uma imprensa livre. A limpa folha corrida do jornal de Porto Alegre e a digna biografia de resistência de seu editor não merecem ser comparados com o prontuário de alguns dos homens públicos que hoje nos representam, julgam e governam.
Em qualquer país sério do mundo, o clamor da sociedade se levantaria já, agora, imediatamente, em defesa de um pequeno jornal, punido apenas por ser correto, preciso, exemplar e corajoso. A inacreditável saga de resistência de Elmar Bones, que precisa fazer agora na democracia o que antes fazia na ditadura, mostra que perdemos algo intangível, irremediável neste rito de passagem. Perdemos a vergonha na cara.
Precisamos decidir se morreremos juntos com o JÁ. Ou se voltaremos com ele. Agora. Já.
Fonte: Observatório da Imprensa
Flagrantes da vida real

Recebi, ontem, de um advogado amigo, nosso leitor:
Hoje vivi um momento ímpar.
Lembro bem, que há anos, lá em Passo Fundo, quando andava de bicicleta aos domingos via sempre os piás vendedores de jornal. Eles gritavam nas esquinas as manchetes, para atrair os seus leitores. Eram coisas do tipo “Presidente Figueiredo não virá a Expointer” ou “Falcão é dúvida para o Gre-Nal”...
Algum tempo depois, notei que a estratégia de venda era outra. Passaram simplesmente a gritar o nome do jornal: “Olha a Folha”, “Zéééééroooo!”, e assim ia.
Pois hoje, parado em uma sinaleira da avenida Ipiranga, aproximou-se de mim uma jovem uniformizada e portando um exemplar de "O Sul" e, pegando-me de vidro abaixado, disse:
- Moço, compra um pra me ajudar...
Pensei que a mídia jornal estava morrendo, hoje vi que já está morta. Vender jornal é o mesmo que esmolar. Refestelo-me nesse velório.
Inês é morta!
Abraço,
Rodrigo Foscarin Pedroso
Fonte: Diário Gauche
23.11.09
Mutirão antimídia
É uma situação estranha, irônica. Os jornais, hoje em dia, tornaram-se uma fonte de tanta desinformação e falsidades, que, para lê-los, temos que estar munidos de uma enorme bagagem de dados, informações, análises, de forma a poder "interpretar" objetivamente as matérias escritas, ou seja, depurá-las dos elementos tóxicos. O cidadão que lê um jornal impunemente, sem tomar as medidas cautelares necessárias, acaba se tornando um autêntico imbecil, cheio de opiniões alheias, embasadas em pilares tão sólidos quanto papel jornal.
Não tem jeito. A mídia, definitivamente, se tornou uma pedra no caminho para a democracia e para a paz mundial. O que é uma grande ironia. Evidentemente, o mundo livre e democrático precisa de uma mídia livre. Também é evidente que os cartéis midiáticos que assumiram a comunicação de massa no mundo se pretendam representantes exclusivos da "liberdade de imprensa", e isso enquanto escravizam jornalistas, desestabilizam governos, beneficiam interesses escusos, fazem campanhas de guerra, e manipulam desgraças.
A crise financeira mundial é um exemplo. Eu não consegui engolir ainda que os governos do mundo inteiro alocaram trilhões de dólares para salvar bancos privados. Ou seja, para que os filhinhos-de-papai possam continuar fazendo windsurf na Indonésia. Com esse dinheiro, o mundo poderia transformar a África com grandes obras de infra-estrutura, programas sociais e educação, tornando o continente negro num mercado gigantesco que, por sua vez, serviria para alavancar o crescimento do próprio mundo desenvolvido. Seria o Plano Marshall aplicado à Africa. O Plano Marshall, para quem não sabe, foi uma ajuda econômica dos Estados Unidos à Europa, aplicada em 1947, visando a reconstrução econômica de países que ainda secavam as feridas de guerra. A contribuição norte-americana equivaleu, em termos atualizados, a 130 bilhões de dólares, e o plano obteve resultados estupendos. Após os quatro anos durante os quais o plano foi implementado, a Europa voltou a crescer vigorosamente. E os EUA ganharam com isso, por causa das intensas relações comerciais e culturais que, a partir da ali, ganharam ainda mais força.
Por que não fizeram isso com a África? Por que os EUA não fazem isso com a devastada América Central?
A resposta, naturalmente, é política. E daí voltamos à mídia, esse Leviatã que olha governos e povos de cima para baixo. O linguista Noam Chomsky explica que não se trata de encontrar figuras diabólicas articulando planos macabros em salas de redação. É um processo natural, como uma doença. Poder gera poder e a mídia, amparada por Constituições escritas há séculos (para não dizer milênios), quando não existia comunicação de massa, conseguiu se tornar um tumor maligno que ameaça a própria existência da democracia, sobretudo em regiões com instituições democráticas ainda frágeis, como é o caso da América Latina.
É importante, claro, que exista mídia independente no mundo, mas é preciso, antes disso, que se criem leis para trazer justiça e civilidade ao universo midiático. Especialistas em saúde pública vem fazendo severas denúncias sobre os incalculáveis prejuízos que a desinformação causa aos governos e à população, por conta da irresponsabilidade das pautas midiáticas ligadas ao tema.
O caso da febre amarela no Brasil, em que mais gente morreu em virtude do pânico gerado pela mídia do que vitimadas pelo vírus, foi apenas o caso mais emblemático e que chamou mais atenção. Na época, porém, diversos médicos disseram que o problema se repete em larga escala. Esse é um problema, repito, mundial, e a humanidade, um dia, terá que realizar uma grande conferência internacional para legislar sobre a mídia. Já era tempo disso, aliás. Em vez de doar trilhões para banqueiros, o mundo poderia montar um grande sistema de tvs abertas, por satélite, para integrar as diferentes culturas mundiais. Seria lucrativo para todo mundo.
Não é o caso de termos uma mídia dominada pelo Estado. Ao contrário, a mídia hoje é absurdamente dependente do Estado, e não é por outra razão que ela tanto luta para assumir o controle do mesmo.
O aspecto mais vergonhoso dessa situação, todavia, é a dependência do Estado em relação mídia. E o Estado democrático é o povo institucionalizado. Intelectuais midiáticos vivem falando em democracia, mas mantém o debate sempre em nível rasteiro. Não lhes interessa criar um vínculo mais estreito entre a cidadania e a política, e por isso eles tratam, de todas as formas, de afastar o cidadão do universo político, seja pintando as instituições com cores dantescas, seja através de uma criminalização da atividade política, que é o que eles fazem com a militância partidária e com o sindicalismo.
Em resumo, a situação é a seguinte: nós, brasileiros, cidadãos de uma nação livre e democrática, entregamos nosso futuro, nossa cultura, nossa saúde, à meia dúzia de nababos cujas empresas ajudaram a articular o golpe de Estado em 1964 e, depois, a consolidá-lo por vinte longos tristes anos. Isso é um absurdo. Liberdade é liberdade. Podemos mexer nas leis da comunicação no Brasil ao nosso bel prazer, desde que o assunto seja discutido democraticamente e o objetivo seja o bem geral da nação. Quer dizer, os povos têm inclusive o direito de cometer erros. O importante é haver liberdade. A mídia latino-americana vende a ideologia de que os povos não tem liberdade para mudar suas leis, de que isso seria um "bolivarianismo" e não a própria essência da democracia, que é a liberdade para mudar ou não mudar, mas sobretudo a liberdade, conferida pelo voto popular, para que os representantes eleitos realizem os ajustes necessários na Carta Magna. Como um amigo gosta de dizer, a Carta Magna não é uma pedra onde estão escritos dos 10 Mandamentos. A Constituição é um pacto entre os cidadãos livres e soberanos de seu país.
O que não pode é dar golpe de Estado, como fizeram em Honduras. Esse é o crime capital contra a democracia, porque viola o seu princípio basilar. O poder emana do povo. Acabou. Se eles conseguirem tirar isso da Constituição (e é o que eles querem), então podem piar. Por enquanto, quem manda é o texto escrito e aprovado pelo Congresso Nacional em 1988.
Não são firulas ou chicanas jurídicas que podem justificar isso. Eu posso castigar levemente o meu filho, mas não estourar a sua cabeça com um tiro de revólver. Foi o que fizeram em Honduras. É bem sintomático que nossa mídia tenha simpatizado com o que foi feito lá. O golpe em Honduras também foi um golpe midiático, porque foi todo articulado em torno dos principais grupos de comunicação do país. A mesma coisa aconteceu na Venezuela em 2002. A mesma coisa aconteceu no Brasil em 1964! Muitas reuniões políticas preparatórias para o golpe militar no Brasil ocorreram em salas de redação.
A imprensa não precisa ser "apartidária", conforme a Folha agora se pretende, em mais um acesso de autismo e hipocrisia. Não precisa também ser uma "mosca" em nossa sopa, como o mesmo jornal se qualificou, em peças publicitárias que mais pareciam uma campanha de auto-desmoralização. A imprensa precisa, isso sim, assumir a sua responsabilidade como uma instituição central numa democracia, um quarto poder, e como tal sujeita aos rigores de uma Constituição democrática e livre!
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Em dezembro, acontecerá a Conferência Nacional de Comunicação. A importância desse evento, que a imprensa procurará de todas as formas desqualificar, já é visível: o debate propiciado sobre um tema fundamental. O governo já liberou mais de 200 milhões de reais para a sua realização, e já aconteceram, em todo país, conferências estaduais de comunicação. O blog vem acompanhando o evento através da internet. Se alguém me convidar, estarei lá em Brasília, representando a blogosfera, essa nova instituição, tão curiosa, tão diferente do formato monstruoso e unicelular da grande mídia. A blogosfera tornou-se (ou vem se tornando) tão grande como outras grandes mídias, mas não tem uma cabeça só. É um monstro com milhões de cabeças. Sobre a Conferência, sugiro que assistam a esse vídeo, da Conferência da Bahia, que teve a participação do governador do estado, Jacques Wagner.
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A imprensa é nociva porque ela começa informando mal as próprias autoridades. Juízes, parlamentares, governadores, prefeitos, são mal informados sobre pontos centrais de sua atividade, porque se apresentam números falsos, interpretações equivocadas, entrevistam-se analistas incompetentes e parciais, e a opinião dos leitores é recortada de forma tendenciosa.
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O caso de Honduras para mim serviu como a pá de terra que faltava para enterrar de vez a reputação democrática da imprensa brasileira. Neste sábado (21/nov/09), a Folha publicou um editorial cínico, defendendo as posições mais conservadoras do Estados Unidos, em oposição ao que pensa todo o resto do mundo. A única saída, defende a Folha, é aceitar o resultado das eleições. Mesmo sem Zelaya ter sido restituído. O jornal fala em eleições livres e competitivas. Como se houvesse liberdade num regime ditatorial onde o presidente da república, eleito pelo voto popular, é forçado a pedir refúgio numa embaixada estrangeira. A ditadura hondurenha não permite que Zelaya tenha acesso aos meios de comunicação do país, bloqueando o debate eleitoral. O que Zelaya fez? Ele é algum terrorista? É algum bandidão perigoso? Ele foi deposto porque queria incluir uma pergunta na cédula eleitoral:
- Você acha que Honduras precisa de uma assembléia constituinte?
Era uma pergunta ao povo! Nem tocava no tema da reeleição, outro ponto ridiculamente explorado pelos golpistas de lá e daqui. Sendo que o grau de hipocrisia, por aqui, atingiu as raias da loucura, visto que tivemos um presidente da república que, com apoio de toda a grande imprensa, mudou as regras eleitorais para si mesmo - e sem consultar o povo.
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Em seu editorial, a Folha desinforma, porque, quando fala em eleições livres e competitivas, omite o que seus próprios repórteres informaram: o fechamento de jornais, rádios e canais de tv favoráveis a Zelaya; toque de recolher; proibição de reunião; e o mais importante, o cerco e agressão sistemática ao líder político mais importante do país. Zelaya não concorre à eleição. Não concorria antes, nem concorre agora. Quantos colunistas não escreveram, muitas vezes, en passant, como que dando isso por verdade consensual (o que é mais irritante), sobre a vontade de Zelaya de se reeleger? No entanto, mesmo não concorrendo, ele é um quadro político fundamental no jogo de poder democrático do país. Ao silenciá-lo, vetando-lhe o acesso aos meios de comunicação mais importantes (que em Honduras também são uma concessão pública, e como tal vem sendo usados sistematicamente por Micheletti e asseclas, que a todo momento aparecem na TV fazendo pronunciamentos), a ditadura hondurenha não permite uma eleição livre. Era como se, nas eleições do Brasil em 2010, um governo golpista impedisse Lula de aparecer em qualquer grande canal ou jornal, para falar de política e pedir votos para este ou aquela candidata.
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Outra coisa que a Folha procura esconder é o fiasco da interferência americana na crise em Honduras. A mídia tentou interpretar (açodadamente, agora se vê) a ação diplomática americana como uma prova da insignificância do Brasil. Bajularam os EUA de uma forma vergonhosa, e humilhante para nós brasileiros. E agora querem forçar goela abaixo da opinião pública brasileira uma solução desesperada, resignada, derrotista, de aceitar um pleito eleitoral ilegítimo, defendido apenas pelos setores mais reacionários do governo Obama. Aliás, quem acompanha um pouco o processo político norte-americano sabe que Obama está sendo terrivelmente chantageado, atacado, caluniado por numerosas, endinheiradas e ultra-agressivas hordes reacionárias. Isso explica, mas também não legitima o que Obama está fazendo em Honduras. Ele está sendo pusilânime. Pô, ele foi chamado de "negrinho que não sabe nada", por um ministro do governo golpista! Eu esperava que ele fosse mais duro. Por outro lado, entendo que a administração do Estado americano envolve um corpo de funcionários tão gigantesco, que é difícil para Obama controlar tudo em pouco tempo. É necessário mais alguns anos para que as novas orientações ideológicas da Casa Branca percorram as artérias de todos os órgãos governamentais. Ainda mais depois de tantos anos de Reagan e Bush.
Fonte: Óleo do Diabo
O negócio é adular

Publicidade quer pegar carona na popularidade do presidente Lula
O jornal serrista, Folha de S. Paulo, de hoje, chama a atenção para um fenômeno recente da publicidade brasileira, a exaltação do governo federal, tentando pegar carona na popularidade do presidente Lula. Vejam:
Empresas aproveitam a popularidade do presidente Lula e o momento econômico favorável para fazer do governo seu garoto-propaganda.
Ambev, GM, Bradesco, Vale e Embratel produziram comerciais de televisão recentes enaltecendo a firmeza do país na crise, a capacidade de superação dos brasileiros, a harmonia entre o público e o privado e a relevância do país no mundo.
O Brasil é o país "da iniciativa privada em equilíbrio com o setor público", diz a campanha televisiva "Presença", do Bradesco, segundo maior banco privado brasileiro.
"Há dez anos, quem poderia imaginar a gente emprestando dinheiro para o FMI?", lembra o anúncio televisivo do carro Aprile, da Chevrolet/GM.
"A crise foi passageira", avisa comercial da maior siderúrgica do mundo, a Vale. "O Brasil vive um momento de ouro", exalta o comercial da Brahma, marca da Ambev. [...]
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A matéria da Folha esqueceu de apontar a adulação feita semana passada pelo jornal Zero Hora, do grupo RBS de Porto Alegre (ver fac-símile acima, publicado na página 45 da edição de 19/11/2009, quinta-feira última).
Durante a ditadura civil-militar - de 1964 a 1985 - o exercício da adulação ao regime por parte da publicidade das empresas privadas foi prática corrente. Em especial durante o governo Médici (1969-1974), quando o país atingiu taxas de crescimento econômico expressivas e houve forte investimento estatal. Paradoxalmente, foi o período de maior repressão dos governos ditatoriais originados do golpe de 1964.
Fonte: Diário Gauche
RBS - CORPORAÇÃO DO LIXO PUBLICA ANÚNCIO ANALFABETO

O anúncio de página inteira, em quatro cores, publicado pelo Grupo RBS na edição de hoje de seu jornalixo Zero Hora deveria dar cadeia a quem o aprovou. Além do descarado cinismo do reclame, já denunciado pelo implacável Diário Gauche, a peça publicitária da corporação sirotskyana legitima um verdadeiro estupro à regência verbal. Já não bastasse o vergonhoso padrão "aterro sanitário" de seu jornalismo vendido, comprovável diariamente em variadas formas de emissão, a Rede Brasil Sul de Comunicação ocupa preciosa área de seu tabloide xexelento para perpetrar um obsceno ato de violência preposicional, conforme o fac-símile acima.
Estamos diante de um seriíssimo problema de relacionamento sintático para o qual, suspeitamos, não exista tratamento eficaz. Esta, pelo menos, é a tese em que este Cloaca News sempre acreditou.
Fonte: Cloaca News
8.11.09
Jogo dos 7 Erros - 2

Falando em manchetes cretinas, que tal essa? Bastou a assinatura de dois convênios para a saúde dos presidiários melhorar! É a melhora por decreto. Que barbada!
Fonte: Blog do Kayser
6.11.09
Jogo dos 7 Erros

Na verdade, não são sete erros. Mas só porque a manchete é curta. Em um reduzido número de palavras, o Correio do Povo consegue chamar de "Plano do Estado" um projeto do governo. Depois, afirma categoricamente que o tal plano (projeto, na verdade) "reajusta salário e valoriza (o) servidor", quando o projeto propõe (já que é um projeto ainda) o aumento de salário de apenas duas categorias, e não de todo o funcionalismo, como a manchete dá a entender. Duas categorias que não se sentiram tão valorizadas assim, principalmente pelo fato de o tal projeto conter um nebuloso décimo-quarto salário para quem cumprir metas (que não se sabe quais são) ou for produtivo (na opinião de não se sabe quem).
Nem estou dizendo que o projeto é ruim. O que estou dizendo é que a manchete é pavorosa como jornalismo e primorosa como assessoria de imprensa do governo.
Fonte: Blog do Kayser
16.9.09
Confiança mundial na mídia é a mais baixa da história

Matéria publicada hoje no New York Times e comentada pelo jornalista Luis Nassif revela que a confiança na mídia é a mais baixa da história: apenas 29%. Confira outras informações reveladas pela publicação norteamericana:
* 63% consideram as reportagens imprecisas contra 29% que ainda julgam que a mídia em geral procura chegar à verdade dos fatos.
* em 2007 – última pior marca – a proporção era respectivamente de 53% e 39%;
* 74% consideram que a mídia toma partido nas matérias sobre questões políticas e sociais;
* 74% também consideram que a mídia muitas vezes é influenciada por interesses poderosos;
* o maior percentual negativo é entre eleitores democratas. Aumentou de 43% para 59% o percentual dos que consideram as matérias imprecisas; e de 54% para 67% os que consideram que a mídia toma partido.
Para ler a matéria na íntegra(na versão em inglês) clique aqui.
Fonte: Aldeia Gaulesa
25.8.09
RBS e o Pontal do Estaleiro
Ontem houve uma consulta pública em Porto Alegre para escolher entre dois projetos quase igualmente prejudiciais para a orla do Guaíba. Não sabia? Pois é, nem a RBS. A coisa é absurdamente confusa, cheia de idas e vindas. Uma confusão dessas merecia um espaço grande na imprensa, já que não é simples de ser explicada. Várias matérias, um bom tempo na TV, espaço nos jornais… Não viu nada disso? É porque a RBS descobriu sábado que haveria essa consulta, e deu uma matéria simples no Jornal do Almoço. Não vou falar das (poucas) matérias que apareceram depois da consulta. Preferi me ater aos momentos anteriores, em que a imprensa deveria informar a população do que aconteceria.
Uma matéria de cerca de três minutos, como qualquer outra. Simples, como não o é o tema. Superficial, como não poderia deixar de ser diante de tão pouco tempo. Faltaram diversas explicações. Assim foi a matéria do Jornal do Almoço de sábado. E assim foram as poucas matérias que trataram do tema. Nessa, especificamente, foram entrevistadas duas fontes, uma defendendo o “Sim” e outra defendendo o “Não”. Ambas fracas, não souberam desenvolver o assunto. Falta de habilidade da repórter Cristine Gallisa e de discernimento para escolher as pessoas do produtor.
Os antecedentes da história, como a compra polêmica da área, e os lucros que a permissão de construção de residências na área do Pontal do Estaleiro trariam para a empresa que a comprou, não foram nem abordadas. A questão ambiental foi citada por uns cinco segundos. A privatização do espaço e da vista do Guaíba não foi nem mencionada. Já os lados positivos da construção e as maquetes eletrônicas, obviamente muito bonitas, porque tentam justamente vender a ideia, foram amplamente mostrados. Enquanto os lados negativos ficaram restritos àqueles segundos que eu acabei de falar, os lados positivos tiveram um tempo grande do off, que citou as áreas públicas do projeto, a segurança que ele traria para a região e os sistemas de prevenção de impactos ambientais, entre outras supostas vantagens.
A matéria existiu porque a RBS não podia ignorar completamente. Mas ela seguiu a mesma linha de vantagens que a RBS vê em ignorar o fato. Ela defendeu o “Sim” (mesmo sem mostrar a qual pergunta o eleitor responderia), o lado da empresa, que já até perdeu parte do interesse na área de tantas idas e vindas que o projeto teve e que a emissora não mostrou para o cidadão, já há meses. Não falar na Consulta Popular segue essa linha, de não discutir a cidade, de não aceitar soluções coletivas, voltadas para a população. As únicas manifestações que se via pela cidade na última semana eram dos movimentos ambientais e de defesa da cidade, que conclamavam pelo voto no “Não”, mesmo ressalvando que ele não serviria mais para muita coisa. Uma eleição fajuta, cujo único objetivo era valorizar o governo Fogaça por supostamente ouvir a população, mesmo que o que a população dissesse não servisse para nada.
E foi isso que a matéria do Jornal do Almoço fez. Mostrou como a Prefeitura de Porto Alegre foi legal ao convocar a população para votar em um projeto que a gente sabe que não vai influenciar diretamente em nada. A ideia principal vem sendo cumprida, que é não discutir a função pública da orla do Guaíba e não discutir a cidade como um todo, favorecendo, assim, as grandes empresas de construção.
* Como sempre que trata do MST, a cobertura da Zero Hora sobre a morte do integrante do movimento Elton Brum da Silva pela Brigada Militar foi vergonhosa. Assinada por Humberto Trezzi, a principal matéria sobre o assunto foi publicada na edição de sábado, e basta ver o título para entender do que eu falo: “MST ganha seu mártir”. Uma completa inversão da notícia.
Fonte: JornalismoB
24.8.09
UM EXEMPLO DA "HONESTIDADE" DAS ORGANIZAÇÕES GLOBO

(http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/o-globo-quer-marina-para-atacar-lula-e-dilma/) 22/08/2009.
Agora, vejam o que Marina diz sobre essa manchete, em aparte a discurso do senador Pedro Simon (PMDB-RS):
Não há escolha: pelo PV, será linha-auxiliar de Serra ou então será ignorada como candidata romântica e sonhadora.
A manchete de "O Globo" é didática. Um aviso para Marina e para quem se ilude com essa candidatura....
Fonte: Miguel Grazziotin
17.7.09
A imprensa gaúcha pegou leve demais
Hoje os jornais do Rio Grande mediram palavras para falar do incidente.
Zero Hora fala em "reação ao cerco".
O Sul publica "protesto" e "confusão".
O Correio do Povo consegue ir um pouco mais longe e fala em "protestos e fúria".
Mas é preciso ir às capas do centro do país para entender o que aconteceu na capital gaúcha.
O Estado de S. Paulo dá o incidente na foto principal de capa e fala que Yeda "bate boca".
O Globo não perde tempo e diz "O grito".
E a Folha de S. Paulo vai além de todos os jornais, gaúchos ou não, e como foto principal de capa fala em "Um dia de fúria".
Por que os jornais gaúchos não conseguem ser mais específicos, como a Folha de S. Paulo?
Por que a imprensa gaúcha só começou a falar dos escândalos da governadora depois que a revista Veja trouxe o fato, mesmo que o Ministério Público já esteja com o caso desde o ano passado?
Por que os jornais gaúchos, exemplos de sucesso para todo o Brasil, têm tanta dificuldade em falar do governo e da governadora?






Fonte: Mídia Mundo
2.7.09
Governo Yeda bate no fundo do poço

Essa manchete da página 2 do jornal Correio do Povo é inacreditável. O editor está tão confuso e perplexo quanto nós, os leitores. Vejam só: o Piratini, o Executivo, em suma, a governadora Yeda, pressiona para que um subordinado seu não abandone o barco do governo de insensatos.
Confesso que eu nunca, jamais, vi coisa semelhante na política guasca. Um chefe do Executivo afirma que pressiona para alguém ficar a seu lado, que não se vá, que não diga adeus, Mariana.
I-na-cre-di-tá-vel!
Este é o maior e o melhor atestado da fraqueza e da falta de capital político da governadora tucana Yeda Rorato Crusius.
O governo Yeda está nu e a pé. Uma Lady Godiva varicosa e sem cavalo.
Abstraindo os episódios que atentam contra a moralidade pública, politicamente este é o ponto mais cavo e depressivo a que poderia chegar uma administração no Estado do Rio Grande do Sul – em qualquer tempo do seu presente e passado histórico.
Deu, não tem mais o que afundar.
Só pode ser a Mãe Natureza que desmonta a Uergs


Sim, a Universidade do Estado do Rio Grande do Sul – Uergs – está sendo encolhida e aos poucos, desmontada. Zero Hora fez, na edição dominical de ontem, um apanhado sobre a situação lamentável da Universidade criada (2001) e organizada pelo governo Olívio Dutra (1999-2003), entretanto, não é atribuída responsabilidade a quem quer que seja pela grave situação pelo qual passa a instituição estadual.
O jornal do grupo RBS esquece de determinar o sujeito da oração. Quem encolhe a Uergs? Quem desmonta a Uergs?
Forças ocultas ou forças ocultadas são os responsáveis pela degradação da Universidade?
É óbvio que são forças ocultadas. Zero Hora esconde ardilosamente o sujeito responsável pelo sucateamento da Uergs. A governadora Yeda Rorato Crusius não está desmontando somente a Universidade estadual, mas o próprio Estado. O novo jeito de governar é sinônimo de desmonte da máquina pública, de corrupção em vários órgãos públicos, de desprezo pelo público em favor do privado, de irresponsabilidade com a saúde pública e com a educação de qualidade, de insolências no trato com os temas do funcionalismo, de repressão aos movimentos sociais, de descaso com a legislação ambiental e – sobretudo – do despreparo com a administração pública e o diálogo político e democrático.
Zero Hora omite o sujeito responsável pelo desmonte da Uergs porque é parte solidária desta sabotagem contra o ensino público e gratuito. O grupo RBS é a estufa morna e maternal onde se gerou e cresceu a hoje governadora Yeda Rorato Crusius. Como, então, nomear a responsável pelo dano proposital à Uergs sem se autoincriminar em definitivo?
Fac-símiles: matéria de ZH dominical (29.06.2009). O atual reitor da Uergs, nomeado pela governadora tucana Yeda Rorato Crusius, toma o cuidado de omitir o nome da própria, ao dizer que tem "conversado com o Palácio". O interlocutor dele é o Palácio. O reitor dialoga com o Palácio. O Palácio é o culpado de tudo. O Palácio é mesmo muito feio e mau.
Sempre a obsessão com Chávez


De roupa nova, repaginado, o jornal Zero Hora não consegue esconder as suas compulsões. Uma delas, talvez a mais gritante, é com a figura do presidente venezuelano Hugo Chávez.
O golpe militar sofrido pelo presidente hondurenho, Manuel Zelaya, no dia em que promovia consulta popular para respaldar uma nova Assembleia Constituinte, acaba sendo elemento secundário para os editores de ZH, o mais importante é informar que ele é aliado de Chávez, um certo esforço no sentido de desqualificar o presidente deposto. A manchete de capa passa essa informação e o mesmo acontece na manchete interna da página 26 (acima). É para não sobrar nenhuma dúvida.
O presidente Zelaya foi eleito pela direita liberal hondurenha em 2005. Mas no curso de seu governo começou a buscar apoio popular através de políticas públicas que resgatassem a imensa dívida social das oligarquias locais para com os camponeses e trabalhadores urbanos hondurenhos.
Horas atrás acabou sendo vítima da solução histórica encontrada pelas elites para impor a sua vontade minoritária e intolerante – o uso das forças armadas para golpear um presidente civil que procurava governar com soberania e espírito republicano. Um filme velho e embolorado, mas que continua sendo o predileto das oligarquias latino-americanas.
O inédito é que em nome da legalidade e do direito, os gorilas o tenham golpeado precisamente no dia em o presidente promovia uma consulta popular para preparar uma nova Constituinte, ou seja, por ter respeitado o jogo democrático e promovido a participação popular é que Zelaya foi duramente golpeado.
19.6.09
Uma afronta ao Estado de Direito
Por: Naira Hofmeister para ADufrgs
O parabéns a você para a RBS de Santa Catarina foi cantado pelo rei Roberto Carlos, estrela da festa de 30 anos da empresa no Estado, comemorados no dia 16 de maio. O apagar das velinhas, no entanto, pode ser bem menos animado e é esperado para o final do ano. Através de uma Ação Civil Pública, o Ministério Público Federal de Santa Catarina pede que o Grupo RBS abra mão de um dos seus cinco diários que circulam no Estado e escolha apenas duas, entre as seis emissoras da RBS TV regional. “Ainda esse ano podemos ter uma sentença. Porque essa ação tem instrução, ela se prova”, acredita o procurador da República no Estado de Santa Catarina, Celso Três.
A acusação é por formação de oligopólio. “É um conceito da ordem econômica, mas se aplica aos meios de comunicação porque suprime empregos, mexe no mercado local”, justifica. Com um agravante, sublinha o procurador. “Nesse caso, a concentração atinge o Estado Democrático de Direito porque bloqueia a garantia de ampla expressão e informação do cidadão. Só é possível haver múltiplas interpretações dos fatos da vida social a partir da pluralidade de órgãos de comunicação. O que não acontece em Santa Catarina”, acusa.
A ação foi ajuizada em novembro de 2008, mas o inquérito consumiu dois anos da rotina de Celso Três. A decisão de processar o grupo foi tomada em 2006, quando a RBS comprou o tradicionalíssimo jornal A Notícia, instalado há mais de 80 anos no município de Joinville. “Foi a gota d’água”, relata Três. “Todos os jornais de Santa Catarina são da RBS: A Notícia, Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina e Hora de Santa Catarina. Excetuados, é claro, os minúsculos, locais, sem qualquer expressão de rivalizar com a RBS”, sustenta a peça jurídica assinada por ele e outros três procuradores da República.
Apesar disso, nem o Ministério das Comunicações nem o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) condenam a compra do jornal A Notícia. Eles aceitaram o argumento da empresa, de que os veículos estão em nome de pessoas diferentes. “Os proprietários são da família Sirotsky e existem alguns laranjas. Mas se os veículos trazem a mesma manchete – ou transmitem a mesma programação – está caracterizado o oligopólio. É absurdo dizer que não!”, revolta-se Celso Três.
A certeza do procurador fica explícita na nomeação dos réus no processo. São treze ao todo – União, Cade e apenas duas pessoas físicas. Os demais citados são pessoas jurídicas, proprietárias das emissoras e jornais. Os responsáveis pelos CNPJs, no entanto, são todos ligados à família. A única exceção é Moacir Gervazio Thomazi, antigo proprietário de A Notícia.
Citado nominalmente, o presidente do Grupo RBS, Nelson Sirotsky é também o responsável por quatro veículos que respondem à ação. Outras duas pessoas da lista compartilham seu sobrenome: Denise e Marcelo, que respondem respectivamente pelas emissoras da RBS TV em Criciúma e Joinville. Já as televisões de Chapecó e Joaçaba estão representadas por Eduardo Magnus Smith, diretor executivo de desenvolvimento de negócios do Grupo RBS.
Além de pedir a devolução do jornal A Notícia ao dono anterior – ou sua venda para um grupo independente da RBS - o processo foca a concessão de radiodifusão, que é uma outorga pública. O Decreto-Lei nº 236, publicado em 1967 estabelece que nenhuma empresa ou pessoa pode ter mais de dez emissoras de televisão em todo o território nacional. A RBS possui 18, apenas de canal aberto. Também impede a concessão de mais de duas por Estado – só em Santa Catarina o grupo mantém seis canais locais que transmitem a programação da RBS TV, além do Canal Rural e a TV Com, que só abrange Florianópolis. “Isso é lei desde a época dos militares”, justifica Três.
Constituição desrespeitada
“A maior rede regional de TV do País conta com 18 emissoras distribuídas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, com uma cobertura que atinge 790 municípios e mais de 17 milhões de espectadores nos dois estados. Possui 85% da grade de programação da Rede Globo e 15% voltada ao público local”. Essa é a descrição que o site do Grupo RBS dá para a Rede Brasil Sul de televisão, a RBS TV. É um tiro no pé. Isso porque a Constituição Brasileira determina que 30% da programação de rádio e TV devem ser locais.
Regulamentado ou não, o artigo é o argumento que o procurador da República utiliza na peça jurídica. “Já que a legislação está trancada no Congresso - o que é uma vergonha - queremos que a justiça estabeleça esse critério. Porque quando se fala em programação local, estamos falando em direito de expressão do cidadão”, justifica o procurador da República.
Celso Três admite que modificar – ou fazer cumprir - a legislação não é uma tarefa fácil. “Tem que ter coragem para fazer isso. Cabe ao presidente da República fazer um pronunciamento em rede nacional, explicar para sociedade. Vai ter muita emissora que vai criticar, é claro. Os 30% são razoáveis, ainda sobra 70% da grade para a programação nacional. Isso enseja a diversidade”.
Empresa é um partido político
Para além do poderio econômico que uma empresa do tamanho da RBS (veja quadro abaixo) detém, uma das maiores preocupações do Ministério Público de Santa Catarina é com a pressão política que o grupo pode exercer. “Uma situação é você ter a televisão, ser transmissora da Globo - e todo mundo sabe que o País só assiste à Globo. Mas bem mais grave é você ter a Globo, os jornais e as rádios. Porque os veículos se somam. Isso se chama propriedade cruzada e catapulta o posicionamento político”, critica Três.
O texto da Ação Civil Pública cita um exemplo bem conhecido dos gaúchos: a manipulação de pesquisas eleitorais. O documento traz até uma referência ao ocorrido no pleito gaúcho de 2002, no qual concorriam Tarso Genro (PT) e Germano Rigotto (PMDB) - e vencido por este último. A divulgação de pesquisas com percentuais muito diferentes daqueles verificados nas urnas, que indicavam ampla margem do peemedebista, gerou o cancelamento de 25 mil assinaturas de Zero Hora. A campanha obrigou a RBS a pedir desculpas publicamente através de um editorial publicado em Zero Hora. “No episódio eleitoral, uma das instituições [que executam pesquisas encomendadas pela RBS], embora tenha registrado corretamente o vencedor do pleito no Rio Grande do Sul, errou gravemente na diferença percentual entre os votos dos dois candidatos”, admitiu na época em editorial na Zero Hora, o presidente do Grupo RBS, Nelson Sirotsky.
No caso catarinense, o beneficiado é colega de partido de Rigotto e, assim como ele, saiu vencedor do pleito. “Na ultima eleição ao governo do Estado de Santa Catarina, o Grupo RBS encetou uma ação de sinergia em prol de Luiz Henrique da Silveira”, lê-se na peça jurídica, que a seguir, descreve a seqüência de eventos. No primeiro turno, os jornais da RBS juravam que Luiz Henrique estava eleito, sem a necessidade do segundo confronto – “fato desmentido nas urnas”, aponta o procurador. No segundo turno, as pesquisas veiculadas pela RBS indicavam uma vantagem de 20% do candidato sobre seu oponente, Espiridião Amim (PP). A diferença na apuração foi de 5,42%. “Doutrinada à exaustão a vitória de uma candidatura, a tendência do eleitorado, especialmente o indeciso, é aderir à vencedora”, denuncia a peça jurídica. “Quando se diz que é a RBS quem governa o Estado, que ela faz e tira o governo, é nesse sentido. Aí o governador que se opõe a um grupo como esse, é derrubado”, complementa Três.
No Rio Grande do Sul, Canoas é a bola da vez
Na mesma semana em que comemorou seus 30 anos em Santa Catarina, a RBS lançou o semanário Mais Canoas, que vai circular às sextas-feiras encartado em Zero Hora e no Diário Gaúcho. A tiragem prevista é de 25 mil exemplares mas dependendo da competência do departamento comercial, deve aumentar. Canoas é o segundo maior PIB do Rio Grande do Sul. A cidade tem um diário editado pelo Grupo Sinos, que já atua na região há 50 anos.
A julgar pelas práticas relatadas em Santa Catarina, é bom os executivos do Grupo Sinos começarem a se preocupar. No estado vizinho, a RBS praticou dumping, que é a taxação de preço abaixo do valor de mercado. No caso, a venda de exemplares do jornal Hora de Santa Catarina - de caráter popular - “por reles R$ 0,25” de acordo com a Procuradoria da República - para concorrer com o Notícias do Dia, do grupo Record. “À concorrência, resta quebrar ou vender-se a RBS”, alerta o texto jurídico.
E no litoral catarinense, para “combater” o Diarinho - jornal de Itajaí com 30 anos de existência, que utiliza uma linguagem sarcástica e tem leitores fiéis - a RBS pressionou uma rede de supermercados para não expor os exemplares nos caixas. “A empresa também faz negociações com os anunciantes, de reduzir o valor pago caso não anunciem em outros diários”, complementa Três.
Em 2008, o grupo incorporou a Rádio Metrô FM, a preferida dos pagodeiros de Porto Alegre. Depois de substituir os programas e comunicadores tradicionais pelos da casa – nesse caso, a rádio Cidade, principal concorrente da Metrô – a RBS simplesmente extinguiu o veículo. Agora, o espaço 93,7 do dial FM é ocupado pela Gaúcha, exatamente a mesma programação de AM. “O que não entendemos é como a concessão de radiodifusão, que é pública pode ser simplesmente adquirida por uma opu outra empresa”, questiona coordenadora regional do Fórum Nacional de Democratização da Comunicação, Claudia Cardoso.
E além dos quatro jornais que já mantém no estado, a RBS agora está de olho em três novos diários tradicionais do Interior. A empresa nega o interesse, mas no início do ano chegou a visitar as redações de O Nacional, de Passo Fundo, Agora, de Rio Grande e o Informativo de Lajeado.
Por uma mídia mais democrática
Cinco artigos da Constituição Brasileira tratam sobre a proibição da formação de oligopólio ou monopólio na comunicação. Apesar disso, o setor, ao lado das indústrias de chocolate, bebidas e pasta de dente, lidera o ranking de concentração do mercado brasileiro. “O lobby das empresas de mídia é muito forte e por isso, mesmo depois de 20 anos de sua publicação, esses artigos não foram regulamentados”, lamenta Claudia Cardoso.
Depois de anos articulando com governos, os movimentos sociais conseguiram marcar a data da primeira Conferência Nacional da Comunicação. Vai ser em dezembro. “Vivemos num país que tem mais televisões do que geladeira. É preciso reestruturar a comunicação, e capacitar o público para a crítica”, defende.
A idéia é combater o discurso uníssono, contra o qual não há voz suficientemente forte que tenha eco. Como a criminalização dos movimentos sociais pautada pela imprensa conservadora do Brasil. A reportagem de ADverso constatou que as charges dos jornais Zero Hora e Diário Catarinense do dia xx de abril eram idênticas em seu conteúdo, ainda que as assinaturas fossem de dois cartunistas diferentes. Coincidentemente, os desenhos ironizavam o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, um dos grupos que freqüentemente acusam a mídia de patrulhamento ideológico. “Em Santa Catarina chegamos a ter a mesma manchete em mais de um jornal. Idêntico! A ótica do Ministério Público é a proteção do direito à informação do cidadão. Isso é inerente à pluralidade - não existe diante de um órgão oligopolista”, avalia Celso Três.
Quem é a RBS
Faturamento em 2006: R$ 825 milhões
Lucro líquido em 2006: R$ 93 milhões
18 emissoras TV aberta (afiliadas da Globo)
2 emissoras de TV comunitária
1 emissora de agronegócio
25 emissoras de rádio
8 jornais diários
4 portais na internet
Editora RBS Publicações
Gráfica
Gravadora Orbeat Music
Empresa de Logística ViaLog
Empresa de marketing para público jovem Kzuka
Participação em empresa de móbile marketing
Fundação de Responsabilidade Social