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25.10.09

Saudades do neoliberalismo


Hoje, o principal jornal do grupo RBS nos brindou com mais um editorial saudosista do projeto neoliberal. O sucessivos escândalos envolvendo o DETRAN gaúcho, obrigaram o Grupo RBS a reconhecer que a privatização do DETRAN, ocorrida no governo Britto com o seu explícito apoio, gerou enormes prejuízos à sociedade, com desvios que podem chegar a R$ 30 milhões ano. Uma verdadeira fortuna que saiu do bolso de todos os gaúchos. Importante registrar que a privatização dos serviços do DETRAN foi adotada apenas no RS e em um outro estado da federação.

Mas o editorial não faz autocrítica nem dá seu projeto político por derrotado. Afirma categoricamente que "a sitaução somente chegou a esse ponto, porém, não pelo fracasso do modelo de terceirização, mas pela incapacidade ou falta de vontade do poder público de enquadrar os prestadores de serviço dentro de parâmetros razoáveis de preço e de seriedade no uso dos recursos oficiais". Faltou indicar em qual setor esse modelo deu bons resultados, citar um único exemplo. Realmente, é forçoso reconhecer, seria uma tarefa díficil. Todas as experiências tentadas geraram tarifas excessivas, serviços ineficientes, corrupção na relação entre o poder público e o privado, abusos e falta de regulação (vide concessionárias de rodovias).

Apesar disso, a conclui o grupo RBS que "infelizmente, o serviço público tem se caracterizado pela ineficiência. O caminho ideal, para conjugar moralidade e eficiência, certamente não é o Estado. É, sim, uma parceria responsável, adequadamente fiscalizada, com prestação de contas à sociedade de forma permanente".

O grupo RBS parece não ter ou não querer tirar lições dos acontecimentos dos últimos anos, preferindo adotar a velha cantilena do Privado X Estatal que marcou os tempos da guerra fria. Um pensamento arcaico, que não se modernizou e, certamente, cobrará um preço caro desse grupo de comunicação.

Fonte: O Partisan

23.8.09

Laços midiáticos IV


Ainda sobre a publicação anterior (Laços midiáticos III), recomendo a leitura do diálogo que o Ministério Público Federal atribuiu ao senhor Fernandino e o senhor José Barrionuevo (pg. 836/840).
A imagem acima reproduz apenas um pequeno trecho dessa conversa tão ilustrativa de como esses personagens são preocupados com a "coisa pública". Infelizmente, o oligopólio midiático regional não percebeu ou não atribuiu importância a essa passagem da ação de improbidade administrativa.
Talvez, se algum dos personagens em questão tivesse sido colunista político de um veículo de comunicação rival a conversa tivesse virado notícia. Quem sabe.

Fonte: O Partisan

22.8.09

Laços midiáticos III



As afirmações acima constam de uma carta elaborada por Lair Ferst e entregue à governadora Yeda Crusius, documento apreendido por ocasião do cumprimento de mandado de busca e apreensão e que serviu de prova na ação de improbidade administrativa (pg. 859/860) promovida pelo Ministério Público Federal.
Achei especialmente interessante esse trecho "Conta também com uma séria de colunistas de vários jornais que tem remuneração paga pelo Sr. José Fernandes para plantar notícias de seu interesse particular".
Por que será que nossa imprensa "livre" não investiga quais colunistas seriam pagos para servir aos interesses dessa organização criminosa? Será que esse assunto não interessaria aos seus leitores? Será que os jornais não tem interesse em limpar seus quadros de profissionais comprometidos com interesses espúrios?
E o senhor José Barrionuevo, lembram dele e do seu papel no cenário político em período recente? Ao que parece esse documento explica muita coisa.
Um prato cheio para quem deseja enfrentar o oligopólio midiático regional. Seria magnifico tocar nesse assunto em um debate na rádio ou televisão, sugerindo ao Lasier Martins entrevistar o senhor Barrionuevo sobre o papel que lhe foi atribuído por Lair Ferst.
Pena que nossos políticos estejam comprometidos com a lógica do sistema eleitoral até a médula e tenham dor de barriga só de pensar em cobrar essa briga.


Fonte: O Partisan

21.8.09

Laços midiáticos II


Importante ler atentamente esse trecho da degravação de uma conversa entre dois denunciados pelo Ministério Público Federal por improbidade administrativa (pg. 1043/1044). Essa conversa também dificilmente será noticiado ou terá evidencia no oligopólio midiático regional.
O acusado Flávio Vaz Neto conversa com Andréia, a qual reclama do assédio de uma jornalista chamada "Rosane". A jornalista estaria ameaçando noticiar que Andréia seria amante de Vaz Neto.
Mas o fundamental é o motivo do assédio promovido pela jornalista. Diz a interlocutora do acusado "eles não querem atingir a mim, nem a ti, nem quem quer que seja. Eles querem atingir o relatório". O relatório em questão é o da CPI do DETRAN.
A preocupação principal desse veículo de comunicação, fica claro, não é informar seus leitores. O objetivo é produzir factóides convergentes com seus interesses, manipulando a opinião e percepção da sociedade acerca dos fatos.
Como já dito aqui, ainda há muito para contar sobre a relação do oligopólio midiático com os principais personagens dessa quadrilha de alta periculosidade.

Fonte: O Partisan

20.8.09

Laços midiáticos



Esse trecho muito interessante da degravação de uma conversa entre dois denunciados pelo Ministério Público Federal por improbidade administrativa (pg. 195) dificilmente será noticiado ou terá evidencia no oligopólio midiático regional.
O Deputado José Otávio Germano se queixa de uma matéria do jornal Zero Hora para Dornel Maciel. Depois faz o seguinte encaminhamento: "Tem que pegar aí um grupo que não esteja diretamente envolvido e ir lá falar com o Nelson, viu".
Falar com o Nelson da RBS.
No que diz respeito as relações com a mídia, o modus operandi dos acusados de saquear os cofres públicos é muito similar nos casos que envolveram o banqueiro Daniel Dantas e os denunciados na Operação Rodin. Trata-se de cuidar da imagem dos seus integrantes perante a opinião pública, para confundi-la, passando uma imagem de lisura e idoneidade. Para tanto, aproximam-se de jornais, agências de publicidade e de profissionais da área de comunicação, investindo em versões favoráveis aos seus interesses ou projetos.
Uma história que ainda aguarda para ser contada.


Fonte: O Partisan

25.7.09

Forças naturais do barulho



Há um grande problema com a tese - assumida publicamente pelo jornal Zero Hora e brilhantemente pulverizada por Cristóvão Feil - de que a "fragilidade estrutural" do Detran/RS "ajuda a explicar por que" seus presidentes "não duram muito tempo no cargo".

Pelo menos dois deles não duraram muito porque foram alvos da Operação Rodin, que investigou o desvio de mais de R$ 40 milhões da autarquia, e não por sua "fragilidade estrutural".

A tese dessa suposta fragilidade é uma das conclusões da Operação Rodin, e não um de seus princípios investigativos. Logo, não faz sentido se afirmar que ambos, Flávio Vaz Neto e Carlos Ubiratan dos Santos, foram presos provisoriamente durante a referida Operação porque a autarquia que presidiram padecia de "fragilidade estrutural".

Não. Eles foram presos porque "grupos criminosos se apoderam de determinados contratos para (...) escoar recursos da autarquia".

Teria sido bastante estranho ter aberto algum jornal, em 07 de novembro de 2007, e lido que ambos foram presos por conta dessa peculiar fragilidade: - "Os senhores estão sendo presos por conta da fragilidade estrutural da autarquia que presidiram". Baita argumento.





Há menos sentido, ainda, em se defender a tese de que os presidentes que lhes sucederam também não duraram muito tempo no cargo em função dessa teoria da "fragilidade estrutural".

A menos, claro, que ela (A) seja um eufemismo para a expressão "grupos criminosos" que "se apoderam de determinados contratos para (...) escoar recursos da autarquia" (B). Que outra fragilidade seria essa, senão a própria ação dos referidos grupos?

Bem, mas aí teríamos um problema maior ainda, pois indiretamente estaríamos admitindo que recursos da autarquia continuam sendo "escoados", já que reconhecemos identidade entre A e B (A = B). A estaria por B, dito de outro modo.

Mas, se admitirmos tal tese, então também precisamos admitir, no mínimo, que o governo Yeda Crusius está sendo conivente com essa situação, uma vez que existem fortes suspeitas de que Sérgio Buchmann, seu último presidente, teria sofrido pressão de agentes governamentais "por não ter reconhecido uma suposta dívida da autarquia com a empresa de guinchos Atento", "desentendimento" que, como é público e notório, teria motivado a queda de sua antecesssora, Estella Maris Simon.

Sim, pois bem poucas coisas além de uma suposta dívida não reconhecida por seus dois últimos presidentes (C) - e La Vieja acredita que um homem que sacrifica seu interesse privado em nome do interesse público deve ter boas razões para não reconhecer uma dívida supostamente pública - poderiam ser identificadas com "escoar recursos da autarquia" (B). Como C é igual a B e B é igual a A, então A também é igual a C. A também eufemiza C, em outras palavras.





Entretanto, é evidente que a via interpretativa da teoria da "fragilidade estrutural" como eufemismo para a ação de "grupos criminosos" que "se apoderam de determinados contratos para (...) escoar recursos da autarquia" - e, por conseguinte, também como eufemismo para "supostas dívidas públicas não reconhecidas" - é fantasiosa.

A corrupção pública, ao menos no RS, é como que uma espécie de força da natureza. Se não, está prestes a ser naturalizada. Embora grupos criminosos guascas formados por homens de bem costumem se apoderar de contratos para escoar recursos públicos, o problema está na estrutura de nossa administração pública, frágil e suscetível a fraudes. Ela, a corrupção, como que brota dessas fragilidades e suscetibilidades; assim mesmo, despersonalizada e sem pai nem mãe, coitada.

Aliás, La Vieja não entende como homens de bem como aqueles que integram grupos criminosos guascas possam ser responsabilizados, se agem quase contra sua vontade. Eles estão ali, mateando despacitos e como quem não quer nada, zelando pelo bem público, até serem violentamente arrancados desse honesto idílio pelas irresistíveis suscetibilidades e fragilidades estruturais de nossa administração pública. Forças da natureza, só pode.

Erra o homem público gaúcho que, a exemplo de Sérgio Buchmann, nega-se a praticar um crime, ou com ele
compactuar. Buchmann, esse pária, deveria ter usado as informações privilegiadas que recebeu para livrar a cara de seu filho e, depois, como todo homem de bem, ter culpado a fragilidade estrutural de nossa administração pública, cujos apelos, como se sabe, são irresistíveis.





Essa, senhores, é a via interpretativa da razão, como tão bem nos ensina o jornal Zero Hora. Deixemos de lado, portanto, os eufemismos e as fantasias. Isso é coisa para quem associa uma ideia à outra; o que, como bem se sabe ao menos desde Aristóteles, não faz o menor sentido.

Portanto, os dois primeiros presidentes do Detran/RS não duraram muito tempo no cargo por desconhecerem a intensidade das forças naturais responsáveis pelas suscetibilidades e fragilidades estruturais de nossa administração pública - foram suas vítimas, portanto. Os dois que lhes sucederam, por sua vez, também não duraram muito porque, mesmo a conhecendo, erraram o alvo: combateram interesses humanos obscuros, ao invés de neutralizá-las.





"Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando quando querem exprimir qualquer realidade.
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença".

Poemas Completos de Alberto Caieiro (Poemas Inconjuntos, 1913-1915).
Poesia heterônima de Fernando Pessoa.





(A matéria de Zero Hora acima reproduzida foi retirada do Diário Gauche)

Quando um jornal não quer informar, faz como Zero Hora


Que grupos criminosos se apoderaram do Detran? Eis a questão.

Quando um jornal não quer informar, faz como Zero Hora. Vejam a matéria intitulada “Uma autarquia do barulho”, na edição de hoje do diário da RBS. Além de se tratar de um texto escrito com o dedão do pé, parece alguma coisa sobre bloco de sujo do carnaval. O Detran é do “barulho”, para o jornal ZH. Que meiguice.

É uma “missão espinhosa” para o Palácio Piratini (o sujeito da oração é o Palácio, pasmem) manter alguém à frente do Detran.

“As conclusões da Operação Rodin indicaram uma fragilidade estrutural, que ajuda a explicar por que os presidentes do Detran não duram muito tempo no cargo”. Fragilidade estrutural? Os caras roubam quase 50 milhões de reais e o jornal (desinformativo) chama de “fragilidade estrutural”. Só falta constatar que há um feitiço no Detran, e por esse motivo – plenamente justificado, à luz da razão e de métodos científicos avançados –, os presidentes da autarquia são ejetados de suas cadeiras institucionais. “Especulações mais ousadas apontam que pode tratar-se da existência de pregos na cadeira da presidência do departamento encarregado do trânsito” - poderia ser uma linha de trabalho do jornal ZH, emprestando um ar misterioso à edição de hoje.

Mais adiante, o texto fica mais atrevido: “Pela tese dos agentes federais, grupos criminosos se apoderaram de determinados contratos...”.

Que coisa! Sério, agentes federais constroem teses? Grupos criminosos se apoderam de contratos? Tudo muito estranho. Que grupos criminosos seriam esses? Seriam gangues de “bebês japonêses”? Seriam quadrilhas de “bêbados de porta de bar”? Ou talvez “comunistas infiltrados”, os mesmos que teriam provocado a morte de Marcelo Cavalcante, segundo o primeiro-ex-marido, Carlos Crusius? Pode tratar-se, também, de “perseguidores macarthistas”? Ou os “inimigos do déficit zero”? Ou a temível máfia dos “montadores de frágeis palanques” que há semanas cometeram um atentado covarde contra a governadora? Quem sabe as "torturadoras de criancinhas"?

Muito bem. Nós fizemos a nossa parte. Apontamos diversos suspeitos de terem se apoderado de “determinados contratos” do Detran.

Que tal, agora, os editores do jornal ZH reunirem dois ou três dos seus consagrados repórteres investigativos e mandá-los a campo para que nos revelem a verdade límpida e fria sobre o Detran/RS?

Mal podemos esperar.

Fonte: Diário Gauche